Tomar revive o único julgamento popular de Portugal de 1975
Iniciativa recria julgamento peculiar em que o homicida foi absolvido e o latifundiário assassinado foi condenado postumamente por exploração e opressão do povo
Tomar vai reviver meio século depois um dos episódios mais marcantes do PREC (Processo Revolucionário em Curso): o julgamento popular do caso José Diogo, ocorrido a 25 de Julho de 1975 no Tribunal Tomar. O único julgamento popular na justiça portuguesa. Na iniciativa no dia 22 de Maio, o Conselho Superior da Magistratura, a Comarca de Santarém e a Câmara de Tomar promovem um seminário dedicado à justiça, à cidadania e ao papel da participação popular na administração da justiça.
A iniciativa decorrerá no Cine‑Teatro Paraíso e no Palácio da Justiça I de Tomar. A manhã será dedicada ao enquadramento histórico do caso e ao debate sobre os seus protagonistas e o contexto revolucionário em que ocorreu. Segue‑se um painel sobre a participação popular na justiça, com referência a instrumentos como o tribunal do júri, os juízes sociais e a acção popular.
Durante a tarde, está prevista uma visita guiada ao palácio da justiça, permitindo aos participantes revisitar fisicamente o espaço onde o julgamento popular se desenrolou. O programa inclui ainda a apresentação do livro “A Justiça no 25 de Abril e o caso José Diogo”, da autoria do Procurador‑Geral Adjunto Luís Eloy Azevedo, obra que reconstrói o processo com base em fontes judiciais, documentais e jornalísticas.
O dia termina com a recriação teatral do julgamento pelo grupo Fatias de Cá e com a exibição do documentário “Liberdade para José Diogo”, de Luís Galvão Teles, que revisita o ambiente político e social do período revolucionário.
José Diogo era um trabalhador agrícola e tractorista, nascido em Castro Verde em 1938, acusado de ter matado o seu antigo patrão, Columbano Líbano Monteiro, veterinário e ex‑presidente da Câmara de Castro Verde, após uma discussão relacionada com condições de trabalho e horas extraordinárias não pagas. O homicídio ocorreu a 30 de Setembro de 1974, quando José Diogo voltou à herdade para pedir novamente emprego e acabou por desferir uma facada que viria a ser fatal. O julgamento absolveu o homicida e condenou a vítima postumamente por exploração laboral.
O seminário contará com a participação de juízes, académicos e profissionais de várias áreas, reunindo diferentes perspectivas sobre a relação entre justiça, memória histórica e envolvimento cívico. O programa final será divulgado em breve.


