Ana Leite lidera SFUS com espírito de missão e aposta na modernização
A nova presidente da Sociedade Filarmónica União Samorense fala numa colectividade que precisa de estabilidade, renovação e envolvimento das gerações activas para garantir o futuro.
Ana Margarida Leite Assunção assumiu a presidência da Sociedade Filarmónica União Samorense (SFUS) sem ambição pessoal pelo cargo, mas movida por aquilo que descreve como um “espírito de missão” para evitar um vazio directivo na colectividade centenária. “Não foi algo que ambicionasse. A motivação foi não deixar cair uma direcção”, afirma, sublinhando que a decisão surgiu num contexto em que poucos se mostravam disponíveis para assumir a liderança.
Com ligação à SFUS desde a infância, Ana Leite cresceu dentro da colectividade, onde entrou ainda criança para aprender música e onde manteve sempre uma presença activa ao longo dos anos. O percurso nos órgãos sociais foi feito de forma gradual, passando pelo conselho fiscal e pela direcção, até assumir agora a presidência “com naturalidade”.
A nova presidente entende que a sustentabilidade das colectividades depende da capacidade das gerações intermédias assumirem responsabilidades. “Se nós, na idade dos 40, não pegarmos nestas associações, elas vão morrer”, alerta, referindo o equilíbrio difícil entre a vida pessoal, profissional e o voluntariado associativo. Entre as prioridades do mandato, destaca a necessidade de trazer “paz de espírito” à instituição, tanto do ponto de vista financeiro como organizacional, mas também de introduzir uma “lufada de ar fresco” através da modernização. Nesse âmbito, está em curso a implementação de um novo sistema informático que permitirá aos sócios tratar de inscrições e pagamentos online, reduzindo a dependência dos serviços presenciais. “Queremos facilitar processos e acompanhar os tempos actuais, sem perder a identidade da casa”, explica.
A dirigente sublinha ainda a importância da SFUS enquanto colectividade que ocupa tanto crianças como seniores. A escola de música, a natação, a ginástica rítmica, o rancho folclórico, a tuna sénior, a pesca desportiva e o teatro constituem, segundo refere, uma oferta diversificada que contribui para o desenvolvimento pessoal e social dos participantes. No caso das crianças e jovens, destaca o papel da música no desenvolvimento da concentração e do estímulo cognitivo, bem como a importância das actividades para promover a socialização e a confiança. Já entre os mais velhos, iniciativas como a tuna sénior ajudam a combater o isolamento e o sedentarismo. A captação de novos executantes passa por iniciativas como demonstrações nas escolas e eventos abertos à comunidade, numa tentativa de aproximar os mais novos da colectividade e contrariar a concorrência de outras actividades.
“Não conseguimos descolar dos subsídios”
Em termos financeiros, a direcção procura manter a estabilidade, reconhecendo a dependência dos apoios institucionais. “Não conseguimos descolar dos subsídios”, admite, referindo a importância da relação com a junta de freguesia, a câmara municipal e outras colectividades locais. Outro objectivo, que transita da direcção anterior, passa pela aquisição de uma carrinha de nove lugares, que permita maior autonomia no transporte de atletas e equipamentos, reduzindo a dependência de apoios externos, os quais passaram a ser decisivos depois de um acidente que deixou inoperacional a viatura da SFUS.
Para o futuro, Ana Leite aponta um caminho de evolução gradual. “Não vamos mudar tudo de um dia para o outro, mas se todos os anos conseguirmos melhorar alguma coisa relevante, já é um bom caminho”, considera. Questionada a definir a SFUS em três palavras, não hesita: “Arte, cultura e desporto”.
Primeira mulher a liderar a SFUS em mais de um século
Ana Leite Assunção foi eleita presidente da direcção da SFUS, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo em 104 anos de história da colectividade. A eleição decorreu no dia 21 de Fevereiro deste ano, com lista única, ao abrigo dos novos estatutos, que introduzem a votação autónoma dos órgãos sociais. A direcção foi eleita com 39 votos a favor, seis votos em branco e um voto nulo.
O conselho fiscal recolheu 42 votos favoráveis, três brancos e um nulo, enquanto a mesa da assembleia geral obteve 40 votos a favor, cinco brancos e um nulo. Carlos Salvador dirige a mesa da assembleia geral e João Gomes manteve-se à frente do conselho fiscal. Fundada em 1921, a SFUS, que conta com cerca de 5 mil sócios, prepara-se para assinalar 105 anos de actividade no dia 10 de Maio, mantendo-se como uma das mais antigas e relevantes colectividades de Samora Correia.
O aniversário terá, em Maio próximo, um conjunto de iniciativas que envolvem praticamente todas as secções. O programa inclui a tradicional romagem ao cemitério, festivais e encontros musicais, actuações da banda principal e da banda juvenil, bem como uma gala de música no Centro Cultural, onde serão cantados os parabéns à colectividade. As celebrações prolongam-se, em Junho, com um colóquio intitulado “As mulheres e as instituições”.
Uma vida ligada à sociedade
Ana Margarida Leite Assunção, de 44 anos, nasceu a 4 de Julho de 1981 e mantém uma ligação à Sociedade Filarmónica União Samorense praticamente desde que nasceu. Bisneta do maestro e compositor Eduardo Leite da Silva, figura histórica da colectividade, cresceu num ambiente familiar profundamente ligado à instituição. Entrou na SFUS ainda em criança, tendo iniciado a aprendizagem musical por volta dos seis ou sete anos. Mesmo não tendo muito jeito para a música, como confessa, tornou-se sócia na infância e manteve sempre uma presença activa na colectividade, que, em casa, era e é simplesmente conhecida como “a sociedade”.
Licenciada em Gestão de Empresas, trabalha na área financeira de uma empresa de serviços partilhados, em Lisboa. Apesar da actividade profissional fora da terra, nunca desligou de Samora Correia, onde reside e constituiu família. É mãe de dois filhos, ambos ligados à colectividade: a filha frequenta a escola de música e o conservatório, enquanto o filho pratica música e natação.
Para além da SFUS, tem participado noutras estruturas associativas, tendo integrado a mesa da assembleia da Associação Recreativa e Cultural Amigos de Samora (ARCAS) e desempenha actualmente funções como presidente do conselho fiscal dos Bombeiros Voluntários de Samora Correia.


