Sociedade | 02-05-2026 12:00

A medicina veterinária é uma profissão com elevado desgaste emocional

A medicina veterinária é uma profissão com elevado desgaste emocional
Ana Leonardo fotografada com um dos cachorros do Centro de Recolha Oficial da Câmara de Vila Franca de Xira - foto O MIRANTE

Com 25 anos de carreira, a médica veterinária Ana Leonardo reflecte nesta conversa com O MIRANTE sobre uma profissão marcada pela ligação profunda aos animais, pela dificuldade de diagnóstico sem comunicação verbal, pela evolução técnica e pela falta de valorização social. Uma conversa a propósito do Dia Mundial da Medicina Veterinária que se assinala a 25 de Abril.

A medicina veterinária é uma profissão de vocação, marcada por grande exigência emocional, evolução técnica significativa mas ainda insuficiente valorização social, apesar do impacto directo que tem na saúde animal. A médica veterinária Ana Leonardo, com 25 anos de experiência e que lidera o Centro de Recolha Oficial (CRO) do município de Vila Franca de Xira, descreve a sua carreira como um percurso guiado por um sentido profundo de missão. Para ela, ser veterinária significa sentir diariamente que contribui para melhorar o mundo à sua volta, através do cuidado com os seres vivos com quem se cruza.
Ana Leonardo sempre gostou de animais e decidiu seguir medicina veterinária como primeira opção. Um dado que destaca com preocupação é o impacto emocional da profissão. A medicina veterinária apresenta uma das taxas de desgaste psicológico mais elevadas, incluindo uma taxa de suicídio significativa entre os profissionais. Isto deve-se a vários factores: decisões difíceis, limitações económicas dos tutores que impedem tratamentos, perda de animais que poderiam ser salvos e a carga emocional constante associada ao trabalho.
Acrescenta ainda que a profissão é frequentemente romantizada. Existe a ideia de que o veterinário trabalha apenas por amor aos animais, ignorando-se que se trata de uma profissão com custos de vida, responsabilidades familiares e exigências financeiras. Esta realidade contribui para o desgaste emocional dos profissionais. Um dos maiores desafios da medicina veterinária, explica, é trabalhar com animais que não conseguem comunicar verbalmente a dor ou o desconforto. O diagnóstico depende da observação atenta e da interpretação da linguagem não verbal: posturas corporais, comportamentos, sons e sinais específicos.
Apesar da importância da profissão, Ana Leonardo considera que a medicina veterinária não é hoje devidamente valorizada na sociedade. Na sua perspectiva, houve períodos em que era mais reconhecida do que actualmente, num contexto em que muitas profissões - incluindo a medicina humana - enfrentam uma desvalorização generalizada.

Veterinário não é só para urgências
Segundo a veterinária, muitas pessoas continuam a só recorrer ao veterinário em situações graves. Defende que os animais devem ser acompanhados regularmente, idealmente com pelo menos uma consulta anual, muitas vezes associada às vacinações, mas que podem ser anuais ou até mais frequentes dependendo dos protocolos.
No entanto, reconhece que factores económicos condicionam este cuidado. Nem todas as famílias têm capacidade financeira para suportar os custos associados à medicina veterinária, o que influencia a frequência das consultas. Ainda assim, observa uma mudança geracional positiva: os mais jovens tendem a valorizar mais os cuidados de saúde animal e a assumir maior responsabilidade.
Ana Leonardo sublinha também a importância de compreender que a adopção ou aquisição de um animal implica um compromisso sério. Os animais não são brinquedos e exigem custos contínuos ao longo da vida. Nos centros de recolha, explica, os animais são entregues já com o plano vacinal actualizado, desparasitados e esterilizados. Este processo visa promover adopções mais conscientes e responsáveis. Ainda assim, a veterinária critica a compra de animais sem preparação financeira adequada, referindo que o valor gasto na aquisição poderia muitas vezes ser melhor utilizado no cuidado de um animal adoptado.
Ao longo da sua carreira, assistiu a uma evolução profunda da medicina veterinária. Antigamente o médico veterinário era um profissional generalista, responsável por praticamente todas as áreas. Hoje existe uma forte especialização, com áreas como oftalmologia, dermatologia, medicina de animais exóticos e até bacteriologia. Esta evolução foi acompanhada por um grande avanço tecnológico, especialmente nas ferramentas de diagnóstico e nos tratamentos, aproximando cada vez mais a medicina veterinária da medicina humana em termos de sofisticação.

Quem tem trinta cães em casa precisa de ajuda

Ao longo da sua experiência, a veterinária relata também casos complexos e emocionalmente marcantes. Entre eles, situações de acumulação extrema de animais, como casas com dezenas de cães ou gatos no concelho de VFX - referindo episódios onde os serviços já encontraram gente com 34 cães ou cerca de 25 gatos - onde frequentemente existe também sofrimento humano associado, exigindo uma abordagem que vá além da simples remoção dos animais.
Em muitos destes casos, sublinha, as pessoas envolvidas também necessitam de apoio psicológico, o que revela a falta de articulação entre diferentes entidades capazes de intervir de forma integrada. A veterinária menciona ainda situações de maus-tratos graves, incluindo privação de cuidados e violência para com os animais. Recorda um caso particularmente marcante em que um animal foi vítima de violência doméstica e acabou por morrer após um episódio brutal de agressão. O caso teve repercussão judicial, com pena suspensa aplicada ao agressor, mas deixou um impacto emocional profundo.

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