Escuteiros de Torres Novas aprendem importância de trabalhar em equipa e em prol da sociedade
Entrou aos cinco anos para os escuteiros e nunca mais saiu. Aos 52, Alexandre Carvalho lidera o Agrupamento 65 de Torres Novas e continua a acreditar que o escutismo é uma resposta necessária para uma geração cada vez mais fechada sobre si própria, mais dependente da tecnologia e menos habituada a viver em grupo.
O escutismo continua a ser uma das formas mais completas de formação de crianças e jovens, não apenas pela ligação à natureza ou pelas actividades ao ar livre, mas porque ensina a decidir, a organizar, a trabalhar em grupo e a assumir compromissos. A opinião é de Alexandre Carvalho, chefe do Agrupamento 65 de Torres Novas do Corpo Nacional de Escutas, que conta actualmente com 137 elementos, onde as crianças e jovens são desafiados a participar activamente na construção das actividades, desde o planeamento até à angariação de fundos.
Esse modelo já levou, por exemplo, um grupo de jovens deste agrupamento do distrito de Santarém a preparar durante um ano uma viagem de nove dias à Noruega. Para o próximo ano está já em marcha outro grande objectivo: levar um grupo até Kandersteg, na Suíça, um dos centros mundiais do escutismo. Mais do que viajar, destaca, trata-se de aprender que os sonhos exigem tempo, preparação e trabalho colectivo. Até porque “há meninos com algumas carências económicas e como não queremos que os pais paguem as actividades, para grande parte delas os grupos fazem campanhas de angariação de fundos para que possam acontecer”.
Ao longo do ano, o agrupamento envolve-se também em projectos de impacto comunitário e ambiental. Alexandre Carvalho destaca a recolha e plantação de bolotas para recuperação de áreas florestais na Serra de Aire e Candeeiros, a participação na campanha Coração Delta, em apoio a seniores e idosos do concelho, e visitas ao lar de São José em Terras Pretas, ou, ainda, a colaboração em acções de monitorização da vespa asiática, que envolveram a colocação de ninhos para captura, em articulação com a protecção civil municipal.
Alexandre Carvalho entrou no escutismo em 1979, quando tinha apenas cinco anos. Diz que foi “por arrasto”, por influência da família, mas não tem dúvidas de que essa foi uma das escolhas mais importantes da sua vida. Aos 52 anos, olha para trás com gratidão e vê no percurso escutista uma experiência que o ajudou a crescer com mais autonomia, sentido de responsabilidade e capacidade de enfrentar desafios.
Profissionalmente é analista informático, mas é no escutismo que encontra uma missão paralela, que assume com dedicação. Depois de tudo o que recebeu ao longo de décadas, diz sentir o dever de devolver aos mais novos aquilo que também lhe foi dado: orientação, valores, espírito de entreajuda e ferramentas para a vida. “Quero fazer pelos outros aquilo que fizeram por mim”, sublinha.
Jovens mais fechados e menos autónomos
O dirigente nota, porém, diferenças claras entre os jovens de hoje e os de há duas ou três décadas. Considera que “são mais fechados, mais dependentes dos pais e das tecnologias”, com menos contacto directo uns com os outros e com a natureza. Por isso, no escutismo insiste-se em desligar os ecrãs e voltar ao essencial: brincar, conviver, cooperar, errar e aprender em grupo. E quando o fazem, destaca, vêem “miúdos mais alegres e a falar mais uns com os outros”.
Outro desafio passa pelas famílias. Alexandre Carvalho reconhece que, muitas vezes, falta persistência e sentido de compromisso dos pais com a participação regular dos filhos nas actividades. Ainda assim, acredita que o escutismo continua vivo e “de boa saúde” em Torres Novas e mantém-se como um dos movimentos juvenis com mais expressão no concelho e na região.
Numa conversa a propósito do Dia Mundial do Escutismo, assinalado a 23 de Abril, a mensagem que deixa é simples: vale a pena experimentar porque, garante, o escutismo não serve apenas para ocupar tempos livres, mas para formar pessoas. “É uma escola para a vida, onde se fazem amizades e se aprende a viver em sociedade”, remata.
Casa nova a caminho
O agrupamento vive também um tempo de mudança, com a expectativa de se instalar na antiga casa paroquial do Salvador, onde já estão a realizar obras após a assinatura de um contrato do comodato e depois de anos a saltar de espaço, sem uma sede fixa. O objectivo é conseguir finalmente um espaço estável, digno e com condições para crescer.


