Voluntário na coluna de Salgueiro Maia para fugir à guerra
Diogo Rocha tinha 21 anos e estava há apenas quatro meses na Escola Prática de Cavalaria de Santarém quando se voluntariou para seguir na coluna de Salgueiro Maia na madrugada de 25 de Abril. O jovem ofereceu-se sem hesitar, movido pelo medo de ser mobilizado para a Guerra Colonial, que já lhe levara conterrâneos.
Diogo Rocha tinha 21 anos e estava há apenas quatro meses na Escola Prática de Cavalaria de Santarém quando se voluntariou para integrar a coluna de Salgueiro Maia na madrugada de 25 de Abril de 1974. O jovem de Alcanhões, hoje com 73 anos, diz que aceitou sem hesitar sobretudo porque não queria ser mobilizado para a Guerra Colonial, o maior pavor dos rapazes da sua geração. Entrara na EPC em Janeiro desse ano, no curso de sargentos milicianos, e tinha boa classificação como militar, razão pela qual ainda não tinha sido chamado para o Ultramar. Mas já tinha visto conterrâneos de Alcanhões partir para a guerra e não regressar, e a angústia de poder ter o mesmo destino acompanhava-o diariamente.
Na noite de 24 de Abril esteve a namorar à janela da namorada, no mesmo local onde hoje tem uma adega onde produz e vende o vinho das suas vinhas. Entrou no quartel à 1h00 da madrugada. Deitou-se, mas não chegou a aquecer a cama. Passados poucos minutos acenderam-se as luzes e os militares foram mandados sair da caserna. Reuniram numa sala de aulas com o capitão Salgueiro Maia. Diogo Rocha aceitou de imediato integrar a operação.
Confessa que já desconfiava que algo se preparava. Há três semanas que a Escola Prática de Cavalaria vivia uma azáfama pouco habitual, com reparações de viaturas e movimentações constantes. Na viatura onde seguia, uma das que estava posicionada mais à frente, ia também o alferes miliciano Carlos Beato, que comandava um pelotão da Operação Fim do Regime, constituído por 25 dos cerca de 240 militares que se voluntariaram para acompanhar Salgueiro Maia na missão de derrubar o regime ditatorial.
Quando chegaram a Lisboa, os militares foram distribuídos por vários pontos estratégicos. Diogo Rocha ficou na Praça do Comércio, junto ao Tejo. Foi ali que viu uma fragata da Marinha com o canhão apontado na sua direcção. Não arredou pé. Pensou que, se houvesse um disparo, se atiraria para dentro de água. Manteve-se no posto até às 11h00, altura em que seguiu para o Largo do Carmo, onde Marcelo Caetano estava refugiado.
Só regressou a Santarém no dia 26, pelas 22h00, depois de 48 horas sem dormir. Voltaria mais tarde a Lisboa para trabalhar na Caixa Geral de Depósitos. Saiu oficialmente do serviço militar a 2 de Dezembro de 1975, embora já tivesse sido mandado para casa pouco antes do golpe de 25 de Novembro. Passados 50 anos, Diogo Rocha não tem dúvidas sobre o que foi mais importante no 25 de Abril: “O melhor foi não ter ido à guerra. Foi acabar com o pavor que todos nós tínhamos de ser mobilizados para as colónias africanas”.


