Sociedade | 03-05-2026 21:00

Alunos da Reynaldo dos Santos lutam por uma escola inclusiva para surdos

Alunos da Reynaldo dos Santos lutam por uma escola inclusiva para surdos
Inclusão depende não só da escola, mas também da abertura da sociedade à língua gestual - foto O MIRANTE

Assinalou-se a 23 de Abril o Dia Nacional da Educação de Surdos e da Juventude Surda. Uma data que valoriza o modelo de ensino bilingue para surdos, mas que alerta para a necessidade de aumentar a inclusão dos alunos e mitigar os problemas de comunicação. O MIRANTE foi conhecer o trabalho desenvolvido pelo Agrupamento de Escolas Professor Reynaldo dos Santos, Vila Franca de Xira, que lecciona em língua gestual.

“A sociedade precisa de começar a aceitar mais a língua gestual, aceitar as pessoas surdas e saber como comunicar com elas. Não é só oralidade”. O alerta é deixado pela professora Carla Benge, que dá aulas a alunos surdos no Agrupamento de Escolas Professor Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira.
O Ensino Bilingue de Alunos Surdos (língua gestual e português) foi um projecto que começou há vários anos no agrupamento, mas que muitos pais ainda não conhecem. Actualmente, são 12 os alunos surdos que têm aulas nas escolas do agrupamento e nem todos vivem no concelho de Vila Franca de Xira. Dada a escassez de oferta na região, o agrupamento tem alunos dos concelhos de Benavente e Alenquer e até um aluno que chegou há pouco tempo do Brasil.
Carla Benge tem alunos que a acompanham desde o segundo ano de escolaridade. É, para já, a única docente a dar aulas em língua gestual, acompanhada pelo intérprete Nuno Calado. A professora lamenta que, por exemplo, o manual de Língua Portuguesa, que é a segunda língua dos surdos, não esteja adaptado a eles. Não existem livros em língua gestual e os professores têm de adaptar os conteúdos aos seus alunos. “Temos trabalho a dobrar, que é pesquisar informação e encontrar forma de explicar e transmitir acontecimentos ou palavras que eles às vezes não conhecem”, explica.

Escola deve ser mais inclusiva
Sobre o projecto de ensino bilingue, Carla Benge considera como pontos positivos as condições das escolas, os funcionários e os apoios, que permitem aos alunos ter os seus direitos assegurados. Como ponto negativo, a comunicação. “Nós queremos uma escola inclusiva e, na verdade, não vejo isso na prática. Não vejo as pessoas a fazer um esforço para comunicar na língua gestual”, sublinha.
Também a docente tem dificuldades, dada a sua surdez. A maior, diz, é a falta de sensibilidade da sociedade. “Às vezes dizem ‘desculpe, eu não percebi. Pode repetir?’. Eu digo ‘desculpe, eu sou surda’, e as pessoas parece que bloqueiam. Sinto que parece que fiz algo mal. É isto que tenho vindo a sentir toda a minha vida”, explica. Felizmente, no seio familiar, tanto os seus pais como os avós e a irmã esforçaram-se por comunicar consigo. O facto de conseguir ler os lábios também deu uma grande ajuda, mas nem todos os surdos têm essa capacidade.
Quando os pais se vêem confrontados com um bebé surdo nos braços, ficam perdidos. Os médicos, refere a professora, dão apenas como alternativa a colocação de implantes auditivos e não oferecem outro tipo de caminhos fora da oralidade. Depois, muitos pais não aprendem língua gestual por falta de tempo. Na escola, Carla Benge tem como objectivo ensinar os alunos a serem autónomos para vingarem na sociedade e fazer com que a língua gestual seja valorizada. O Dia Nacional da Educação dos Surdos é uma oportunidade de valorizar o ensino da língua gestual dentro das escolas e promover a igualdade de direitos, defende a professora.

Comunicação com mímica e escrita

Jadmila Moniz e Mário Gomes, ambos com 16 anos, são surdos e frequentam o oitavo ano na Escola Básica e Secundária Professor Reynaldo dos Santos. Quando pensa no seu futuro profissional, Jadmila gostava de seguir a área de investigação criminal, apesar de ter gosto pelas artes e pela informática. Já Mário gostava de trabalhar na área da restauração, onde já tem experiência a ajudar a mãe no café.
Ambos os adolescentes relatam dificuldades ao nível da comunicação, até com os próprios funcionários da escola. Jadmila recorre à mímica para se fazer entender com quem não sabe língua gestual, incluindo os pais e as irmãs. Já em casa, quando a família não a entende, recorre à escrita, ao telemóvel e pede ajuda ao Google para corrigir algumas palavras. Mário Gomes tem uma boa comunicação com a mãe e, no café, faz pedagogia com os clientes habituais, ensinando-os a dizer “bom dia” ou a pedir sacos em língua gestual.

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