Sociedade | 04-05-2026 10:00

Do andaime ao hospital: a história de um trabalhador que viu a vida mudar num instante

Do andaime ao hospital: a história de um trabalhador que viu a vida mudar num instante
Técnico de climatização e ventilação, Carlos Cação, sofreu um acidente de trabalho em 2022 e ficou com sequelas graves - foto O MIRANTE

Carlos Cação, técnico de climatização e ventilação, caiu de um andaime a três metros de altura quando desmontava um aparelho num centro comercial em Junho de 2022. O impulso inesperado projectou-o por cima do guardacorpos e atirou-o ao chão, deixando-lhe sequelas profundas que ainda hoje o obrigam a viver entre cirurgias, consultas, fisioterapia e uma luta desigual com a seguradora. A reconstrução da cara, da cervical e a perda de capacidades transformaram-lhe a rotina num exercício diário de resistência.

Estava em cima de um andaime a uma altura de cerca de três metros a desmontar um aparelho de ar condicionado, quando a força que exercia se transformou um repentino impulso o projectou por cima do guarda-corpos, precipitando-se contra o chão. Junho tinha começado há nove dias e estávamos no ano de 2022. O serviço parecia enguiçado desde o início e pelo pensamento de Carlos Cação, que tinha anos de carreira em duas empresas de Almeirim, que já desapareceram, já tinha passado a vontade de fazer uma pausa para se reorganizar o trabalho de alteração dos sistemas de ventilação e ar condicionado num centro comercial em Pombal. Mas a voz que lhe ressoava na cabeça de que o serviço era urgente e que precisava deixar o patrão bem visto acabaram por lhe transformar a vida num caos de limitações.
Nascido em Vale de Estacas, foi para Alcanhões, ambas no concelho de Santarém, aos cinco anos e adoptou-a como a sua terra, começou a trabalhar aos 16 anos, depois de uma fase de estudante irreverente que gostava mais de diversão do que estudar. Quando teve o acidente de trabalho morava em Almeirim, onde continua com uma cadelinha que lhe faz companhia, e trabalhava para a EnergiHotel, empresa de equipamento hoteleiro e climatização de Ourém. A assistência foi rápida pela sorte de o quartel dos bombeiros estar mesmo ao lado e “se calhar foi isso que me salvou ou evitou que ainda ficasse com mais sequelas”, imagina. Já foi acompanhado em 14 especialidades médicas. Agora são oito: neurologia, neurocirurgia, otorrino, oftalmologia, neuro-oftalmologia, psicologia, psiquiatria, neurologia vestibular, além de fazer fisioterapia.

Passou por quatro hospitais até ter alta e iniciar uma batalha com a seguradora
A cara teve de ser reconstruída, a cervical resiste à custa de barras e parafusos, os maxilares tiveram de ser recuperados e tem um implante à volta do olho esquerdo. Esteve internado no Hospital Universitário de Coimbra durante duas semanas, depois de ter passado pelos hospitais de Pombal e de Leiria. Foi operado durante horas no Hospital de S. José em Lisboa e ao fim de um mês teve alta para iniciar uma luta com a companhia de seguros e com a recuperação, tendo já passado por vários hospitais privados. Ao fim de quase quatro anos continua a usar um gorro, mesmo estando um calor abrasador, porque se não o usar tem desequilíbrios e zumbidos nos ouvidos e uma canadiana é o seu amparo diário.
Quando vai ao supermercado tem de pedir a alguém para lhe ler as letras mais pequenas dos produtos. Para quem teve uma vida preenchida, foi dirigente associativo na Associação Popular de Alcanhões, e esteve 12 anos como secretário na assembleia de freguesia da localidade, está agora a adaptar-se às limitações. Conta que quando sai do psicólogo está cheio de vontade de enfrentar os desafios, mas depois basta ter de falar com a seguradora para o confronto constante o desanimar. Em quatro anos nunca conseguiu falar com a gestora do acidente na companhia de seguros e tem de andar constantemente a reclamar o que tem direito numa luta desigual em que, diz, parece que o querem vencer pelo cansaço.
“Se tivesse morrido tinha sido uma sorte para a companhia de seguros”, desabafa. Já fez seis cirurgias. Só a de reconstrução facial e da cervical durou 14 horas. Ainda não recuperou o olfacto e duvida que venha a recuperar, costuma ter a boca dormente, mas o pior é às vezes a sensação de perder a esperança. Carlos Cação é a prova de que em segundos a vida pode dar um enorme trambolhão e um exemplo dos riscos do trabalho.

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