Sociedade | 06-05-2026 10:00

A Mathilde: da cozinha de casa nasceu uma padaria com alma na Parreira

A Mathilde: da cozinha de casa nasceu uma padaria com alma na Parreira
Na Parreira, o pão de massa mãe é preparado por Matilde Victória de madrugada, respeitando o tempo da fermentação - foto O MIRANTE

Começou por oferecer pão a amigos durante a pandemia e acabou por transformar um talento antigo num projecto com identidade própria. Na Parreira, concelho da Chamusca, Matilde Victória criou em 2021 uma padaria, pastelaria e casa de chá onde o pão de massa mãe, os bolos tradicionais e a cozedura em forno de lenha recuperam sabores de outros tempos.

A Mathilde nasceu de uma paixão antiga, mas ganhou corpo num tempo improvável. O que durante anos foi um gesto de carinho, fazer pão e bolos para família, amigos e vizinhos, transformou-se, em plena pandemia, num projecto com raízes firmes na terra e nos afectos. No confinamento o mundo abrandava, mas Matilde Martinho Victória amassava, cozia e oferecia. À sua volta, começaram a dizer-lhe que aquele pão tinha valor, que aqueles bolos mereciam mais do que a mesa dos próximos. E foi assim, quase sem querer, que um hábito íntimo começou a tomar a forma de um negócio com identidade própria. A marca haveria de nascer em 2021, na Parreira, concelho da Chamusca, como padaria, pastelaria e casa de chá, assumindo-se desde o início como um espaço onde tradição, memória e autenticidade são forma de estar.
Na origem de A Mathilde estão muitas festas de aniversário preparadas com as próprias mãos, de um gosto genuíno por fazer pão e bolos e de uma ligação emocional àquilo que sai do forno. Essa dimensão pessoal continua hoje bem visível na identidade da marca. Matilde escolheu instalar o projecto na terra onde nasceu e cresceu, não apenas por ser o lugar de pertença, mas porque ali encontrou o que precisava para fazer o que mais gosta. No coração do Ribatejo, o espaço apresenta-se como uma homenagem aos sabores portugueses de sempre, recuperando receitas, texturas e aromas. É precisamente nesse ponto que o projecto faz a diferença. Quando Matilde diz que tudo é feito como antigamente, não está a recorrer a um chavão. Fala de massa trabalhada à mão, de fermentação natural, de respeito pelos tempos de descanso e de cozedura em forno de lenha. Fala de uma produção que não atropela etapas para ganhar velocidade, porque sabe que o sabor não nasce da pressa. Num tempo em que quase tudo é acelerado, o que ali se vende também é tempo: o tempo que a massa precisa, o tempo que o forno exige, o tempo que a tradição reclama para continuar viva, explica a O MIRANTE.
O pão é o produto que Matilde identifica como a alma do projecto. Foi o pão que abriu caminho, o pão que lhe deu confiança e o pão que continua a ser o centro de uma oferta onde cabem também broas, bolos e doçaria caseira. A marca assume também uma vocação social e solidária, com o compromisso de apoiar a comunidade local e de estar perto de pessoas em situação de vulnerabilidade. Essa intenção também aparece no discurso da proprietária, que fala do prazer de dar pão a quem mais precisa, com carinho e sem alarde.
A rotina de Matilde acompanha a exigência do ofício. Trabalha de madrugada, em silêncio, quando o resto da aldeia dorme, e é nesse recolhimento que prepara o pão que depois sai para venda durante o dia. Há nessa cadência nocturna qualquer coisa de antigo e de resistente, refere. Na Parreira, entre mãos, massa e forno de lenha, Matilde Martinho Victória construiu uma casa onde o pão continua a saber a origem, a memória e a verdade.

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