Das aparas de madeira nasceu uma frota de Renault 4L em Vilgateira
Em Vilgateira, no concelho de Santarém, Pedro Paulino transformou restos de madeira guardados ao longo de décadas numa colecção de oito réplicas da icónica Renault 4L. Cada miniatura, feita à mão, é o prolongamento de uma vida inteira dedicada à carpintaria e a prova de que o talento não se reforma.
Pedro Paulino, carpinteiro reformado de Vilgateira, trocou o desperdício pela criação e deu nova vida a aparas e sobras de madeira que foi guardando ao longo dos anos. Dessa reserva de materiais nasceu uma colecção de oito réplicas da Renault 4L, todas diferentes, todas feitas à mão, todas já com dono antes mesmo de estarem concluídas. A ideia surgiu de forma despretensiosa, num almoço de Natal entre amigos apaixonados pela Renault 4L. No meio da conversa, Pedro Paulino anunciou que ia fazer réplicas em madeira do carro que une o grupo. Quando a refeição terminou já tinha três encomendas: uma azul, uma encarnada e uma cor-de-laranja. A vermelha ficou para si.
Aos 61 anos, e depois de uma vida inteira ligada à madeira, primeiro por conta de outrem e depois na sua própria carpintaria, Pedro Paulino continua a encontrar no ofício uma forma de ocupação e realização pessoal. As fotografias que foi partilhando no Facebook, inicialmente apenas para mostrar a evolução do trabalho, acabaram por fazer o resto. Aos primeiros três pedidos seguiram-se outros, até perfazer as oito réplicas que hoje compõem esta pequena frota de 4L em miniatura. Cada peça é composta por cerca de uma centena de componentes, todos trabalhados em separado e montados à mão. A estrutura principal é feita em madeira de casquinha, um pinho americano, enquanto os elementos mais escuros recorrem a madeiras exóticas de África e do Brasil, aproveitadas na sua cor natural e apenas envernizadas. O processo de construção assenta mais na paciência do que na maquinaria. Pedro Paulino utiliza uma serra de recorte para os encaixes, limas manuais para os acabamentos e uma rebarbadora com discos de lixa para desbastar as peças.
Os pormenores são um dos traços mais impressionantes do trabalho. O habitáculo separa-se da carroçaria, os bancos e o volante podem ser retirados e até os puxadores das portas são fixados com palitos de espetada. Cada exemplar exige mais de 20 horas de trabalho manual, sem contar com o tempo de preparação mental. Muitas das soluções surgem de noite, antes de adormecer. Duas destas miniaturas têm ainda um significado especial. Uma reproduz ao pormenor a Renault 4L que participou este ano nas 24 Horas de Fronteira, prova de regularidade onde, conta Pedro Paulino com satisfação, “deu o bigode” a uma Peugeot 504 dentro da sua classe. A outra replica a 4L que foi a Marrocos em missão humanitária, carregada com bens de apoio a crianças, e inclui até um pequeno reboque, à imagem do automóvel original.
Mas o talento do artesão de Vilgateira não se esgota nas 4L. Enquanto aguardava resposta dos primeiros interessados, decidiu construir também a réplica da sua própria roulotte, com cama, mesa e almofada no interior. Criou até um sistema para a acoplar à miniatura da Renault, embora reconheça, entre risos, que “a 4L não tem nada a ver com puxar a roulotte”. Antes destas miniaturas, Pedro Paulino já se tinha destacado pela construção de uma Vespa em madeira, em tamanho real, que tem levado a concentrações por todo o país. Fez ainda uma mala em madeira com o símbolo da Vespa e está agora a terminar outra dedicada à Renault 4L. Durante a pandemia, aproveitou o recolhimento para criar também uma réplica em tamanho real do seu acordeão, instrumento que toca “um bocadinho”. Os próximos desafios já estão traçados. Na lista surgem um Mini 1000, um Mercedes W124, um Mercedes 190 e até um Citroën 2CV com caixa traseira.


