Sociedade | 10-05-2026 07:00

Em Almeirim há uma escola de dança onde todos têm lugar

Em Almeirim há uma escola de dança onde todos têm lugar

Entre campeões improváveis, jovens que lutam contra preconceitos e adultos que se redescobrem, a secção de dança da 20km de Almeirim é hoje muito mais do que uma escola. É uma pequena família que cresceu na comunidade e onde a dança se tornou território de pertença, confiança e superação.

Em Almeirim há um espaço onde a dança não se mede pelo corpo, pela idade ou pela experiência. Na secção de dança da associação 20km de Almeirim, criada há três anos, entram crianças, jovens, adultos e seniores. Uns chegam por curiosidade, outros por desafio, alguns à procura de um lugar onde possam simplesmente ser quem são. Hoje são 72 alunos, dos 5 aos 84 anos, unidos por uma certeza: ali, todos têm lugar na pista.
O projecto nasceu pela mão de Pedro Machado, professor com mais de quatro décadas ligadas à dança. Começou a dançar aos 10 anos, na rua, através do breakdance, numa altura em que a dança era também uma forma de fugir ao que o rodeava. “A dança para mim é tudo, é uma história de vida. Todas as recordações que tenho, em algum momento, passaram por um conceito qualquer de dança ou por alguém que conheci na dança. Sempre foi uma constante e hei-de morrer a dançar”, afirma a O MIRANTE. Natural do Cartaxo, Pedro Machado mudou-se para Almeirim há três anos sem a ambição de criar uma máquina competitiva. Queria apenas abrir um espaço acessível, onde as pessoas pudessem aprender, conviver e divertir-se. “A ideia era simples: as pessoas poderem vir à noite aprender a dançar, divertir-se, socializar”, explica. Mas a realidade depressa ganhou outra dimensão. Alunos trouxeram amigos, familiares e conhecidos, e a secção cresceu até se tornar num projecto com vertente social, artística e competitiva.
Mais do que formar bailarinos, Pedro Machado diz procurar formar pessoas. Na 20km não há “alunos impossíveis”, há pessoas diferentes, com ritmos diferentes e histórias de vida distintas. Algumas chegam com dificuldades emocionais, problemas de saúde ou rotinas pesadas. Outras encontram ali uma forma de vencer timidez, inseguranças e medos. “Há quem venha simplesmente para ter uma pausa para respirar”, resume o professor.
Carina Brás, coordenadora da secção, viu esse impacto dentro da própria casa. O filho, Vasco, era uma criança tímida, ao ponto de não conseguir entrar num jardim onde estivessem outras crianças. Na dança encontrou um espaço seguro. “Hoje entra numa pista cheia de gente e dança sem medo. Aqui é o espaço dele e onde ele se sente mais confortável. Algo que não seria possível sem a paciência e a sensibilidade do Pedro”, conta.

Dançar contra preconceitos
Apesar dos resultados e do impacto positivo, a dança continua a carregar estigmas. Carina Brás reconhece que ainda é difícil atrair jovens, sobretudo rapazes. “Ainda há aquele preconceito de que não é coisa de homens”, lamenta, lembrando casos de miúdos com talento que acabam por desistir por pressão exterior. Ainda assim, acredita que a realidade começa a mudar. “Quando chegámos, quase não se falava de dança aqui. Hoje há mais procura, mais escolas, mais interesse. Acho que ajudámos a mexer com isso”, afirma.
Os preconceitos também se sentem em competição. Matilde Pereira, de 13 anos, dança há nove e sabe bem o que é não corresponder ao chamado “corpo ideal” ainda associado à modalidade. “Há júris que olham para mim e depois desviam o olhar para outras”, conta, com uma maturidade que denuncia o caminho que já teve de percorrer. Ainda assim, é na pista que se sente mais livre. “Quando estou a dançar sinto que me posso exprimir como quero”, diz. Pedro Machado sabe que a mudança não acontece de um dia para o outro, mas insiste em preparar os alunos para resistirem à pressão. “Digo-lhes sempre: ou baixam a cabeça ao que lhes aparece ou dizem ‘eu sou assim e consigo fazer isto melhor que tu’, sublinha. Para o professor, a dança também ensina coragem, disciplina e auto-estima.
No outro extremo das idades estão Hugo Magalhães, 50 anos, e Sónia Anastácio, 46. Chegaram à dança em 2023, apenas com vontade de experimentar algo novo, e acabaram campeões nacionais de danças standard e latinas na categoria de seniores iniciados. O percurso foi rápido, quase inesperado. “Isto aconteceu tudo tão rápido que às vezes ainda penso que não aconteceu mesmo”, admite Hugo, com humor. “Nós não sabemos dançar, fazemos aquilo que o professor manda e lá conseguimos convencer o júri”, brinca. Os treinos são exigentes e acontecem muitas vezes à noite, depois de dias longos de trabalho. Mas o casal encontrou na escola muito mais do que aulas. Encontrou um grupo. “Somos quase os tios das miúdas. Ajudamos a vestir, a pentear, a acalmar. E elas também nos apoiam. Somos uma pequena família”, diz Sónia.
Numa modalidade onde tantas vezes se exige perfeição, resultado e imagem, em Almeirim há uma escola onde crescer é mais importante do que ganhar. Porque, como diz Matilde Pereira, “uma pessoa é mais feliz quando dança”.

Carina Brás e Pedro Machado - foto O MIRANTE
Sónia Anastácio e Hugo Magalhães - foto O MIRANTE
Matilde Pereira - foto O MIRANTE

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