Sociedade | 11-05-2026 10:00

Os dois “Josés” que entraram e saíram juntos da Câmara de Almeirim após 47 anos de serviço

Os dois “Josés” que entraram e saíram juntos da Câmara de Almeirim após 47 anos de serviço
José Caniço (à esq.) e José Hortelão (à direita) com o Presidente da Câmara de Almeirim, Joaquim Catalão - foto O MIRANTE

Trabalharam quase 47 anos na Câmara de Almeirim e aposentaram-se no mesmo dia. José Hortelão e José Caniço são dois rostos do município que atravessaram quatro gerações de autarcas, da carpintaria às obras, sempre com a mesma disponibilidade e sentido de missão.

Encerram-se duas carreiras que ficam marcadas na história do município e no caso de José Hortelão mais uma vivência com o actual presidente, que era seu amigo e vizinho na juventude quando viveram alguns episódios de rebeldia.

A coincidência não é apenas de calendário. Os dois “Josés” começaram a trabalhar na Câmara de Almeirim numa época em que não havia concursos públicos e bastava falar com o encarregado para, no dia seguinte, se começar a trabalhar. José Hortelão entrou em Junho de 1979 para a carpintaria; José Caniço em Fevereiro do mesmo ano para o serviço de águas. No último dia de Abril de 2026 despediram‑se lado a lado, num almoço no refeitório municipal, com o presidente Joaquim Catalão e os vereadores socialistas.
Antes de ser carpinteiro da câmara, chegando a chefe da carpintaria municipal, José Hortelão trabalhava na carpintaria de Manuel Apolinário, no bairro das Milheiras. Morava perto e era vizinho do então jovem Joaquim Catalão, hoje presidente da Câmara de Almeirim. Os dois partilharam aventuras de adolescência: fumaram juntos o primeiro cigarro e foram multados pela PSP por estarem a usar os baloiços do jardim dos Charquinhos com mais de 12 anos — a idade limite. A brincadeira custou-lhes 80 escudos e 50 centavos, uma história que ambos ainda contam a rir e que recordaram no dia da saída da autarquia perante os vereadores e outros funcionários que estavam no refeitório municipal.
Ao entrar para a câmara, Hortelão encontrou uma carpintaria que não tinha máquinas nem ferramentas. O primeiro salário foi todo para comprar o essencial para trabalhar a madeira. As serras eléctricas só chegaram mais tarde e, durante anos, ia buscar as madeiras cortadas à antiga carpintaria onde trabalhara. O transporte era uma bicicleta, com as tábuas presas no suporte traseiro por elásticos. A carpintaria municipal que chefiou fez trabalhos para escolas, para o posto da GNR, fez barraquinhas das festas, móveis que eram precisos para os espaços municipais e recentemente executou as escadas retrácteis do novo multiusos IVV.

O mestre dos colectores que aprendeu tudo na câmara
José Caniço entrou, tal como Hortelão, com 17 anos, vindo do campo, depois de um familiar ter falado com um encarregado num fim‑de‑semana. Na segunda‑feira já estava ao serviço. Começou nas águas e passou para as obras, mas sempre com uma ligação a tubagens. Apesar de não ser pedreiro de formação, ganhou fama como o melhor a assentar colectores, caixas de visita, esgotos e lancis, numa altura em que os próprios lancis eram produzidos nos estaleiros municipais.
Os dois trabalhadores são lembrados pelos autarcas como exemplos de disponibilidade e dedicação, sempre prontos a ajudar fora de horas e quando era preciso deixar uma obra pronta. O que levam da câmara, dizem, são sobretudo as amizades construídas ao longo de quase 47 anos de trabalho, em que lidaram com quatro presidentes: Alfredo Calado e José Sousa Gomes, já falecidos, Pedro Ribeiro e durante seis meses com Joaquim Catalão que já conheciam da presidência da junta de freguesia da cidade.
Dizem que não têm nada a apontar aos autarcas e não gostam de particularizar o trabalho e as relações com eles, mas José Hortelão faz dois comentários daqueles com quem esteve mais tempo. Sousa Gomes era mais político de gabinete e Pedro Ribeiro era mais de terreno e o autarca mais exigente com os trabalhadores. No dia da despedida, entre colegas, vereadores e histórias antigas, ficou a sensação de que a Câmara de Almeirim perde dois homens que ajudaram a construir, literalmente, parte do concelho — um com madeira, outro com cimento — e que deixam para trás um legado feito de trabalho, algum improviso e muitas memórias.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias