Sociedade | 13-05-2026 10:00

Cães-guia devolvem liberdade mas continuam fora do alcance de muitos cegos

Cães-guia devolvem liberdade mas continuam fora do alcance de muitos cegos
Mariana Lucas, do Carregado, recebeu no final do ano passado o cão-guia Tempo - foto O MIRANTE

A 29 de Abril assinalou-se o Dia Internacional do Cão-Guia. A história de Mariana Lucas, do Carregado, mostra como estes animais podem transformar a vida de quem não vê, dando autonomia, segurança e inclusão.

Nem todas as pessoas cegas ou com visão residual conseguem ter acesso a um cão-guia. Para quem consegue, a diferença é profunda. Mariana Lucas, 24 anos, natural do Carregado, sabe bem o que isso significa. Tempo, um labrador com três anos e meio, é o seu segundo cão-guia e tornou-se um verdadeiro parceiro de vida. “Ele faz uma vida 100% comigo”, resume a jovem, que vive com síndrome de Alström, uma doença genética rara que provoca perda progressiva de visão e audição, entre outras complicações. Até aos 14 anos, Mariana via cerca de 3%, com uma particularidade pouco comum: conseguia ver melhor no escuro do que durante o dia. A doença manifesta-se de forma variável e pode incluir fotofobia, perda auditiva, problemas metabólicos e cardíacos.
Licenciada em Jornalismo, Mariana ainda não conseguiu trabalhar na área, mas mantém vivo o gosto pela profissão, em especial pelo jornalismo desportivo. “Gostava de ser jornalista desportiva. Sempre acompanhei e até fazia relatos de futebol no meu quarto”, conta. Actualmente colabora, através do IEFP, com a associação Cabra Cega, de Sobral de Monte Agraço, onde apoia pessoas com deficiência visual.
O percurso de autonomia de Mariana começou no Colégio Helen Keller, onde aprendeu braille, orientação com bengala e competências tecnológicas essenciais. Mas foi com Tempo que a sua independência ganhou outra dimensão. O cão-guia ajuda-a na orientação diária, na integração social e até na compensação das limitações auditivas. “Se estou num sítio muito ruidoso, ele percebe que não me consigo orientar e assume esse papel”, explica. A ligação entre ambos vai ainda mais longe. Mariana tem diabetes e Tempo consegue detectar alterações nos seus níveis glicémicos. “Quando tenho uma hipoglicemia, ele muda o ritmo, a postura. Percebe que algo não está bem.” Apesar do treino rigoroso, Tempo continua a ser um cão. Quando chega a casa e lhe é retirado o arnês, volta à sua vida normal: brinca, come e segue as suas rotinas.
A jovem já enfrentou situações de discriminação em transportes públicos e restaurantes. Há quem lhe diga que o cão não pode entrar, apesar da lei permitir o acesso de cães-guia a espaços públicos e privados de uso colectivo. Mariana tenta explicar, mostra o Cartão de Cidadão, onde a referência legal está inscrita no verso, mas nem sempre chega. Em alguns casos, já teve de chamar a polícia. Mariana vive com a mãe no Carregado, mas considera que a localidade ainda não está preparada para pessoas cegas. “A minha vida é 80% fora daqui”, afirma, sublinhando a importância da mobilidade e da autonomia que Tempo lhe permite conquistar todos os dias.
Actualmente há cerca de 40 pessoas em lista de espera no país para receber um cão-guia. Mas nem todas terão condições para receber o animal, sobretudo quando se trata de primeiras inscrições na única instituição portuguesa que treina e atribui cães-guia: a Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual. Segundo Nuno Gouveia, técnico da instituição, o tempo médio de espera, após a inscrição, varia entre um ano e meio e dois anos. Os cães são sobretudo labradores, embora também possam ser golden retrievers ou cruzamentos entre as duas raças. Regra geral, o acesso é destinado a pessoas entre os 18 e os 65 anos, embora existam excepções. Uma dessas excepções está a ser desenvolvida através de uma parceria com uma escola francesa, que permitirá entregar cães-guia a jovens a partir dos 14 anos. A associação conta actualmente com três treinadores e uma quarta profissional em formação. Desde a sua criação, já entregou cerca de 300 cães-guia.

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