Sociedade | 18-05-2026 07:00

Fusão de bombeiros em Santarém é uma utopia e deve-se apostar numa central única

Fusão de bombeiros em Santarém é uma utopia e deve-se apostar numa central única
Carlos Grazina - foto O MIRANTE

O comandante da Companhia de Sapadores Bombeiros de Santarém desmonta a ilusão de décadas de fusão desta corporação com a dos voluntários da cidade, dizendo que dificilmente acontecerá, porque há mais coisas que as separam do que as aproximam. Carlos Grazina sublinha as diferenças jurídicas, estruturais e de carreira entre as corporações. A criação de uma central única municipal para gerir meios e ocorrências das quatro corporações do concelho é um objectivo cada vez mais próximo e essencial ao socorro de cerca de 60 mil pessoas.

A ideia de juntar as duas corporações de bombeiros da cidade, os sapadores e os voluntários, circula há mais de 20 anos, mas para o comandante da Companhia de Sapadores Bombeiros de Santarém a ideia continua a ser uma utopia e não acredita que passará disso. “Estamos a falar de entidades diferentes. Os estatutos, as carreiras e os regimes de contratação são distintos e até a idade de entrada, que nos sapadores é entre os 18 e os 25 anos, é diferente”, explica. Para o operacional, a fusão não só seria difícil de concretizar como poderia gerar mais problemas do que soluções, devido às diferenças, admitindo que há rivalidade saudável entre corporações.
Se a fusão não avança, a criação de uma central municipal única de gestão de meios e socorro é vista como inevitável. O concelho tem quatro corporações e, apesar da cooperação existente, a articulação entre todas ainda não está plenamente integrada. “Estamos mais perto da concretização desse objectivo. A central municipal é uma forma mais eficaz e integrada de gerir os meios. Evita duplicações e melhora a organização interna ao nível concelhio, antes de se passar ao nível sub‑regional, regional e nacional”, afirma.
A central dos sapadores já foi modernizada, mas falta um sistema que permita integrar as restantes centrais das corporações. O comandante lembra que Santarém é um dos concelhos com maior número de ocorrências na região, o que torna ainda mais urgente uma estrutura de coordenação única.

Meios humanos começam a melhorar
A falta de operacionais é um dos maiores desafios. A companhia tem 42 bombeiros, quando o comandante considera que o mínimo aceitável seriam 60. O recente concurso trouxe dez novos elementos, oito ainda em formação, mas o objectivo é conseguir ir reforçando a companhia tutelada pela Câmara de Santarém. Carlos Grazina explica que o problema resulta de vários factores acumulados ao longo dos anos. Antes de 2019, os sapadores recebiam o salário mínimo nacional, o que tornava a carreira pouco atractiva. “Havia bombeiros com categorias profissionais que nada tinham a ver com bombeiros, como jardineiros”, recorda. A revisão dos estatutos melhorou a situação, mas hoje há outros entraves como as mudanças sociais em que muitos jovens já não estão disponíveis para algumas coisas e vêem no sistema de recrutamento exigente como uma dificuldade, sobretudo devido às provas físicas e teóricas.
Além disso, as pessoas estão menos disponíveis para profissões que exigem horários irregulares e impacto na vida familiar. A falta de tripulações para ambulâncias é uma das consequências. “Quando não conseguimos dar resposta é frustrante, mas temos de gerir os meios de forma eficaz”, refere o comandante. Santarém tem muitos riscos associados, como o centro histórico, o meio aquático, a quantidade de prédios altos, e para o operacional não se pode concentrar tudo no pré‑hospitalar”, afirma, lembrando que a corporação dos voluntários assegura parte importante desse serviço.

Macas retidas e ambulâncias desviadas para Lisboa

A retenção de macas nos hospitais continua a ser um problema grave. As urgências ficam sem capacidade para receber doentes e utilizam as macas das ambulâncias, deixando os meios parados à porta. “Há alturas em que os bombeiros chegam a emprestar macas ao hospital para conseguirem garantir respostas de socorro mínimas”, explica Carlos Grazina.
Mas há um problema menos visível e igualmente preocupante: a de ambulâncias de Santarém e dos concelhos vizinhos serem frequentemente enviadas para hospitais de Lisboa, porque faltam serviços ou capacidade no hospital distrital. “Um serviço que aqui demoraria uma hora passa a demorar três ou quatro. Isto retira meios ao concelho e preocupa‑me enquanto responsável por 60 mil habitantes”, realça o comandante da Companhia de Sapadores Bombeiros de Santarém.
O comandante lembra que o sistema só funciona porque é integrado e permite apoio de corporações de outros concelhos quando Santarém fica momentaneamente sem meios.

Quartel sem espaço e instabilidade interna controlada
O comandante da Companhia de Sapadores Bombeiros de Santarém reconhece que o quartel da corporação está longe das condições ideais. Há viaturas estacionadas na rua e perdeu‑se a garagem que existia na antiga Escola Prática de Cavalaria, que está a ser transformada em residência de estudantes. “Precisamos de mais espaço. O presidente da câmara quer criar um pólo de protecção civil e isso pode ser uma oportunidade para a companhia”, afirma. Melhorias pontuais têm sido feitas, mas o sonho de um novo quartel mantém‑se vivo.
Sobre a instabilidade interna que marcou a corporação nos últimos anos, garante que a situação está controlada. “Um quartel é sempre um ambiente de divergência de ideias”, admite Carlos Grazina, reconhecendo que o reforço de meios operacionais, sejam humanos ou materiais, bem como carreiras mais justas, ajudam a trazer paz.
Já o aeródromo de Santarém, agora como centro de meios aéreos, é visto como uma mais‑valia. As brigadas de serviço ao centro na época de incêndios são constituídas por elementos dos sapadores, com três bombeiros, um operador de telecomunicações e um operador logístico. No ano passado, Santarém recebeu dois aviões de asa fixa num projecto‑piloto nacional de abastecimento em terra com água e calda retardante. “É uma vantagem enorme para o concelho e para os municípios vizinhos”, sublinha o comandante dos sapadores.

O comandante que nunca sonhou ser bombeiro

Carlos Grazina, 42 anos, é o rosto da Companhia de Sapadores Bombeiros de Santarém. Natural de Abrantes, chegou à corporação aos 18 anos sem nunca ter imaginado ser bombeiro, mas acabou por construir em Santarém toda a sua vida pessoal e profissional. Hoje assume a responsabilidade de coordenar o socorro de um concelho com 60 mil habitantes e quatro corporações de bombeiros, liderando uma equipa que considera “uma segunda família”. A carreira de Carlos Grazina começou em 2002, quando entrou para os então Bombeiros Municipais de Santarém, incentivado por um familiar que concorrera para a corporação. “Nunca tinha tido contacto com bombeiros. Vim para Santarém, cá construí família e cá estudei também”, recorda. Formou‑se em Engenharia de Segurança no Trabalho no ISLA e completou duas pós‑graduações: a de Sistemas de Apoio à Decisão e a de Resposta à Emergência e Incêndios Florestais.
O percurso interno foi rápido. Em 2014, o então comandante Nuno Oliveira convidou‑o para adjunto de comando. Em 2021, foi o presidente da câmara, Ricardo Gonçalves, quem o desafiou a assumir o comando da corporação. Hoje, lidera a Companhia de Sapadores Bombeiros com uma visão assente no rigor, na organização e na responsabilidade pública. Grazina reconhece que o trabalho dos bombeiros é muitas vezes mal interpretado. “Pode parecer estranho às pessoas verem os bombeiros contentes quando vão apagar um fogo. Mas é a adrenalina que estimula o trabalho. Isso pode ser mal interpretado”.

“Sinto responsabilidade por todo o concelho”
Carlos Grazina assume que o peso da função é grande. “Sinto uma responsabilidade por todo o município, todo o concelho a nível da protecção e socorro. Está tudo debaixo da minha alçada e eu sou o responsável por tudo”. A ligação à corporação é também pessoal: casou com uma bombeira que integrou a companhia e que hoje é segunda comandante dos Bombeiros de Alcanede. Têm dois filhos.
O comandante destaca como aspectos mais gratificantes da carreira “trabalhar com e para as pessoas” e a possibilidade de conhecer realidades de todo o país. Mas também carrega memórias difíceis. O ano de 2007 marcou‑o profundamente: “Duas das situações foram acidentes com crianças que morreram. Por mais que achem que não nos incomodamos, os bombeiros têm sentimentos”.
A tarefa mais difícil? “Agradar a todos. Nunca se consegue”. Assume‑se defensor das regras e do rigor, e critica o excesso de exposição nas redes sociais. “As redes sociais devem ser usadas para informar sobre o que é importante para a população. Não temos de publicitar tudo”. O comandante quer continuar o trabalho de renovação dos meios humanos e operacionais”, consciente de que Santarém é um dos concelhos com maior número de ocorrências da região.

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