Jovens falam cada vez pior português e professores culpam redes sociais e falta de leitura
Redes sociais, falta de leitura, influência do inglês e do português do Brasil são apontadas como causas para o empobrecimento da língua portuguesa.
No Dia Mundial da Língua Portuguesa, assinalado a 5 de Maio, O MIRANTE foi ouvir professores e cidadãos sobre o estado actual da língua. O retrato traçado é, em muitos casos, pessimista: menos leitura, mais erros, frases mais pobres e uma crescente influência das redes sociais, do inglês e do português do Brasil no modo como os jovens falam e escrevem. “Os alunos já não lêem absolutamente nada.” A frase é de Maria Teresa Guedes, professora de Português na Escola Sá da Bandeira, em Santarém, há 25 anos. A docente diz assistir, com preocupação crescente, a uma perda de rigor, riqueza vocabular e domínio da língua entre as gerações mais novas. Para Maria Teresa Guedes, Portugal atravessa “uma crise no domínio do português”. O problema, defende, não está apenas nos estrangeirismos, mas também na forma como muitos alunos chegam ao ensino secundário com erros de concordância, dificuldades na conjugação verbal, uso incorrecto de preposições e incapacidade de construir textos coerentes e bem articulados. “Utilizam uma linguagem muito imediata e simplificada, em que querem só passar a mensagem, seja de que forma for”, afirma. A professora aponta o dedo aos novos hábitos digitais e à ausência quase total de leitura fora da escola. “Eles não lêem jornais, revistas ou livros. Nem sequer os livros de leitura obrigatória lêem”, lamenta.
Segundo a docente, o tempo livre dos jovens é passado sobretudo nas redes sociais, onde predominam conteúdos em inglês e em português do Brasil. O resultado, considera, é a perda de construções frásicas próprias do português europeu e a interiorização de formas linguísticas erradas, muitas vezes difíceis de corrigir mais tarde. A preocupação estende-se também à oralidade. Maria Teresa Guedes dá como exemplo erros cada vez mais frequentes na conjugação verbal. “Mesmo no Parlamento ouvimos muitas vezes dizer ‘ele interviu’. As conjugações verbais são muito assassinadas”, critica. A docente diz que muitos alunos aprendem correctamente na infância, mas vão perdendo competências com o uso constante de uma linguagem simplificada, sem acentos, sem pontuação cuidada e sem ligação lógica entre ideias. A professora defende maior responsabilização das famílias e lamenta que muitos pais deixem os filhos passar horas no telemóvel sem qualquer incentivo à leitura. Outro dos aspectos que a preocupa é aquilo que considera ser um crescente facilitismo no sistema de ensino e na avaliação. Na sua opinião, os exames nacionais de Português têm-se tornado mais permissivos. Apesar do cenário que considera preocupante, Maria Teresa Guedes não perde o encanto pela língua. Pelo contrário. Sublinha a riqueza vocabular, a expressividade e a ligação identitária que os portugueses mantêm com o idioma.
Entre a resignação e a preocupação
Na rua, as opiniões dividem-se entre a resignação perante uma mudança vista como inevitável e a preocupação com o futuro do português falado em Portugal. Roberto Silva, brasileiro a viver em Santarém há vários anos, considera que hoje se fala e escreve de forma “mais simplificada” e com mais erros, mas encara o fenómeno como parte da evolução natural das línguas. Filomena Santos, professora reformada, de 68 anos, mostra-se mais inquieta. Diz sentir-se incomodada sobretudo com o peso crescente do português do Brasil entre os mais novos. A antiga professora confessa também que se irrita frequentemente com erros gramaticais ouvidos até na televisão, muitas vezes cometidos por adultos e profissionais da comunicação. “Às vezes até fico na dúvida se sou eu que já estou errada”, admite.
Entre os mais jovens também há consciência da mudança. Juliana Batista, estudante universitária de 20 anos, reconhece que usa frequentemente expressões em inglês, mas admite estar preocupada com o excesso de termos brasileiros entre crianças e adolescentes. “Tenho uma irmã mais nova e noto perfeitamente que ela diz muitas coisas em brasileiro”, conta. A estudante considera que as redes sociais estão a simplificar demasiado a linguagem e a afastar os jovens dos hábitos de leitura. “A norma é ver vídeos no YouTube e no TikTok, e está-se a perder muito o português”, afirma.
Apesar das preocupações, quase todos admitem que reverter esta tendência será difícil. Maria Teresa Guedes teme que, dentro de alguns anos, o português falado em Portugal se transforme numa “miscelânea” entre português europeu, português do Brasil e anglicismos. Ainda assim, acredita que a crescente consciência do problema pode levar escolas, famílias e governantes a reagir antes que a língua perca uma parte essencial da sua identidade.


