Sociedade | 18-05-2026 07:00

Sónia Mendonça e o lúpus: um testemunho de resistência e reconstrução

Sónia Mendonça e o lúpus: um testemunho de resistência e reconstrução
Sónia Mendonça, de São Vicente do Paul a viver em Azambuja há 20 anos, partilha a sua história entre a doença e a arte como processo de cura interior - foto O MIRANTE

Sónia Mendonça aprendeu a viver com uma doença autoimune que lhe entrou na vida cedo demais e que nunca mais a largou. O lúpus tirou-lhe saúde, o trabalho e muitos dias de autonomia, mas não lhe levou a coragem nem a capacidade de transformar dor em arte. Um depoimento a propósito do Dia Mundial do Lúpus, que se assinala a 10 de Maio.

Diagnosticada aos sete anos com artrite reumatoide juvenil, durante muito tempo, as dores que sentia foram sendo atribuídas a essa condição. Mas o corpo dava sinais de que havia algo mais. “A minha madrinha tinha de me dar banho. Muitas vezes não conseguia segurar nos talheres para comer”, conta. Aos 17 anos, Sónia Mendonça, natural de São Vicente do Paul mas a viver em Azambuja, entrou nas urgências do Hospital de Santarém completamente inchada. Seguiu-se o Instituto Português de Reumatologia e depois o Hospital Curry Cabral, em Lisboa, onde ficou internada quase três meses. “Entrei a 1 de Junho e saí no fim de Agosto. São datas que não se esquecem”. Tal como o dia em que soube o diagnóstico, depois de uma adolescência marcada por dúvida e dores incapacitantes.
A confirmação veio depois de uma biópsia ao rim. Sónia tinha lúpus eritematoso sistémico e também a forma cutânea da doença. Na pele ficou-lhe a marca da chamada “borboleta” no rosto, hoje mais discreta, mas que ainda esconde com maquilhagem quando sai à rua. No corpo ficaram as dores, embora hoje mais controladas. “Eu disse ao médico: doutor, se um dia eu disser que não tenho dores, é porque morri. Todos os dias tenho dores, umas vezes mais, outras menos”. Vieram os tratamentos que começaram com sessões de quimioterapia, numa tentativa de baixar a imunidade e tentar travar a agressividade da doença crónica e autoimune. A doença obrigou-a a abrandar e a juntar a esta, um acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu em 2003, relacionado com o quadro clínico, agravou-lhe as limitações. Mais tarde, foi obrigada a reformar-se por invalidez, ainda muito jovem, quando trabalhava na área da contabilidade. Sobre as empresas que têm de lidar com trabalhadores com doenças como o lúpus, lamenta a falta de compreensão nas ausências necessárias para consultas, baixas médicas e dias em que as dores impossibilitam o trabalho. Porque, explica, como a dor não é visível é susceptível a suspeitas. “E isso magoa”, diz.

O milagre da gravidez, o cancro e o impacto da doença
A maternidade foi outro desafio. Disseram-lhe que não poderia ter filhos, mas Sónia engravidou de gémeos e conseguiu ter o Diogo, hoje com 24 anos. A gravidez, encarada como uma espécie de milagre, foi de risco para a mãe e para o bebé, e o pós-parto foi duro, com depressão e limitações impostas pela medicação. Mas a seu lado teve sempre Paulo, o marido, que tantas vezes teve de a socorrer, dar-lhe de comer à boca e cuidar também do filho pequeno. Reconhece-lhe um papel decisivo. Em 2024, a vida voltou a pôr Sónia à prova com um cancro nos gânglios, encapsulado. Fez 33 sessões de radioterapia, teve “dores insuportáveis” e chegou a pesar menos de 50 quilos porque “comer era um sacrifício”, devido às lesões que tinha na boca. Curiosamente, diz que lidou melhor com o cancro do que com o lúpus. “Com o cancro nunca me questionei. Com o lúpus questionei-me muito, fiquei revoltada”. O susto, porém, trouxe-lhe uma aprendizagem profunda: “comecei finalmente a gostar de mim e a valorizar-me”, sublinha.

A arte no processo de cura interior
A pintura e o artesanato apareceram como refúgio. No início, as telas eram escuras, cheias de tons pretos, castanhos e azuis carregados. Como se aquelas cores, reconhece, mostrassem o que naquela altura trazia por dentro. Começou por pintar telas e telhas antigas, depois vieram os porta-chaves, as peças em madeira, as feiras de artesanato e uma paixão que foi crescendo. Hoje, já não consegue pintar escuro. Tudo o que sabe, aprendeu com um outro autodidacta, mas também sozinha, com vídeos, pesquisas na Internet e tentativa atrás de tentativa. Mas não se ilude, pois apesar de a descoberta da arte ter sido um ponto de viragem na sua vida, que lhe mostra que ainda é capaz, sabe que dificilmente se vive dela. Chegou a ter uma loja no centro da vila durante dois anos e, em 2024, teve a oportunidade de expor a sua arte decorativa aos azambujenses numa mostra intitulada “Voo dos Pincéis” na biblioteca municipal. Hoje a artista que assina como “Lobónia’’ - a junção de lobo, o símbolo do lúpus com Sónia - trabalha sobretudo por encomenda. Mas sempre com uma mensagem simples e poderosa: “Eu sou capaz, eu consigo”.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias