Sociedade | 23-05-2026 10:00

Teresa Ferreira regressou da Suíça pelo amor a Santo Estêvão

Teresa Ferreira regressou da Suíça pelo amor a Santo Estêvão
Teresa Ferreira é cabeleireira em Santo Estêvão, localidade do concelho de Benavente onde nasceu, reside e onde continua envolvida no movimento associativo - foto O MIRANTE

Foi uma das nove mulheres distinguidas pelo município de Benavente no âmbito do Dia da Mulher. Natural de Santo Estêvão, Teresa Ferreira reside no Porto Alto, mas mantém a aldeia de Santo Estêvão, onde viveu até aos 9 anos e onde hoje trabalha, no centro da sua vida, entre a profissão de cabeleireira, a participação cívica e a ligação ao movimento associativo.

Teresa Coelho Ferreira nasceu a 10 de Março de 1977, em Santo Estêvão, mas reside há 24 anos no Porto Alto. Cabeleireira de profissão, é uma figura activa no associativismo local, com passagens pela Comissão de Festas de Santo Estêvão e participação nos órgãos sociais da Sociedade Filarmónica de Santo Estêvão. Foi também uma das nove mulheres homenageadas pela Câmara de Benavente no âmbito do Dia da Mulher, distinção que recebeu com surpresa e orgulho. “Fiquei muito surpreendida, não estava nada à espera”, afirma, sublinhando que o reconhecimento é também uma forma de valorizar o trabalho de muitas mulheres que, tantas vezes, permanecem no anonimato. “Ser mulher não é fácil. É o trabalho, é a casa, é tudo e mais alguma coisa”, resume.
Natural de Santo Estêvão, Teresa Ferreira saiu ainda criança para a Suíça, para Aigle, no cantão de Vaud, na parte francesa do país. Tinha nove anos quando deixou a aldeia e recorda esse período como uma mudança difícil. “Meteram-me numa escola e eu nem bonjour sabia dizer”, conta. Apesar da adaptação, aprendeu a língua, concluiu a escolaridade obrigatória e tirou o curso de cabeleireira, profissão que diz ter escolhido desde pequena. “Coitadas das minhas bonecas, andavam sempre todas carecas”, recorda, com humor.
Regressou a Portugal aos 23 anos com a vontade de abrir o seu negócio. A readaptação não foi imediata. “Passado seis meses, disse ao meu marido: voltamos para a Suíça, que não me estou a conseguir habituar”, admite. Não voltou. Viveu cerca de ano e meio em Santo Estêvão, comprou depois apartamento no Porto Alto, trabalhou seis anos num salão e abriu o seu próprio espaço há cerca de 20 anos. A profissão aproximou-a das pessoas e acabou por ser também uma ferramenta para o trabalho comunitário. No salão, entre conversas e marcações, conseguia mobilizar clientes e conhecidos para noites de fados, jantares, eventos de solidariedade ou iniciativas da Comissão de Festas.
A ligação ao associativismo nasceu em casa. Teresa Ferreira aponta os pais, Agostinho e Ana Rosa, como os primeiros exemplos de espírito de serviço. “Sempre fizeram coisas nesta terra e sempre estiveram dispostos a ajudar. Faziam almoços para 200 pessoas. Devo-lhes muito este bichinho”, reconhece. O envolvimento ganhou força depois do regresso da Suíça e antes mesmo da entrada formal na Comissão de Festas, com a organização de eventos solidários, desfiles de moda com materiais recicláveis e outras iniciativas.
A Comissão de Festas acabaria por marcar de forma profunda o seu percurso. Entrou depois de o primo António Manuel Simplício, já falecido, a ter incluído numa lista num período em que a festa tinha estado parada. “Pôs lá o meu nome e eu fui”. Foi tesoureira, presidente e integrou a comissão durante seis anos seguidos, de 2014 a 2019. Durante esses anos, dedicou-se “de corpo e alma” à festa. Para Teresa Ferreira, as festas, a Sociedade Filarmónica, o futebol, os trampolins, são pilares da vida de Santo Estêvão. O trabalho não se resumia aos dias de Agosto. Era feito ao longo do ano, com angariação de fundos, eventos e uma disponibilidade quase permanente.
Entre os momentos mais marcantes está a ida de David Carreira a Santo Estêvão, em 2015. Teresa Ferreira lembra que, à época, parecia impensável levar o famoso artista à aldeia, pelo custo e pela logística. A comissão, da qual fazia parte, insistiu, batalhou e conseguiu. “Não se podia andar dentro de Santo Estêvão. Ver a minha aldeia completamente repleta de gente foi um momento marcante”, conta.
Hoje, continua ligada à Sociedade Filarmónica de Santo Estêvão, embora de forma menos activa do que noutros tempos. Diz gostar sobretudo dos eventos em que participa de forma activa, como tasquinhas ou noites de sopas. A parte mais administrativa nunca a afastou, mas é no terreno que se sente mais à vontade.

“Gostava que os meus netos não tivessem de sair daqui”
O olhar sobre Santo Estêvão é hoje marcado por algum desencanto. Teresa Ferreira lamenta a perda de dinâmica, o envelhecimento da aldeia e a existência de casas degradadas. “Parece que ficou um bocado morto”, afirma. Acredita que falta incentivo para tirar as pessoas de casa e devolver vida à terra. Foi por isso que chegou a pensar voltar a envolver-se mais activamente na comissão de festas. Queria recuperar a dinâmica de outros tempos, com peddy-papers, noites de fados, desfiles de moda, provas de motas, passeios a cavalo e de mota e outras iniciativas ao longo do ano.
Sobre as novas gerações, Teresa Ferreira mostra preocupação. Entende que os telemóveis, os computadores, as redes sociais e os influenciadores afastam muitos jovens da vida em comunidade. “Tudo o que dê um bocadinho de trabalho já é trabalho a mais”, lamenta. Ainda assim, acredita que o futuro pertence aos jovens e que Santo Estêvão precisa deles para não perder as suas raízes.
A possível chegada do aeroporto é vista com ambivalência. Teresa Ferreira admite que poderá trazer movimento, recuperar casas degradadas e fixar jovens com trabalho mais perto, mas reconhece que a transformação terá sempre dois lados. Ainda assim, diz preferir uma aldeia com futuro a uma terra parada e sem capacidade de manter os seus. “Gostava que os meus netos ficassem com raízes nossas e não tivessem de sair daqui”, afirma.
Na reflexão sobre o papel das mulheres, Teresa Ferreira considera que continuam a enfrentar mais dificuldades na vida pública e familiar. Defende que, em sua casa, as responsabilidades são partilhadas, mas reconhece que a sociedade ainda coloca demasiado peso sobre as mulheres. “A mulher carrega muito às costas. Somos nós para tudo”, conclui.

Família, associativismo e poder local

A actividade associativa conviveu sempre com a vida profissional e familiar. Houve dias em que teve de interromper o trabalho para tratar de assuntos urgentes da festa, clientes que esperavam, papéis para assinar, decisões a tomar e uma casa para gerir. Teresa Ferreira, que é mãe de duas filhas, diz que tudo se fazia, mas reconhece o peso dessa disponibilidade. “As pessoas às vezes não têm noção do que abdicamos da nossa vida pessoal e, muitas vezes, do trabalho, para podermos proporcionar depois uma festa assim”, afirmou.
Também assumiu funções na Assembleia de Freguesia de Santo Estêvão, a convite de Ricardo Oliveira, há 16 anos, quando este se candidatou pela primeira vez à junta de freguesia. Foi secretária da mesa da assembleia, manteve-se ligada ao órgão nos mandatos seguintes, com Nelson Norte, e voltou a integrar a actual assembleia. Considera o cargo uma responsabilidade e assume que gosta de ver as coisas correrem bem na sua aldeia. “Tenho assim um bocadinho mau feitio em certas coisas, mas acho que é tudo para o bem de todos”, afirmou.

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