Anabela Fernandes trocou o stress de Lisboa pela tranquilidade de Carapuções
Depois de 43 anos como administrativa, Anabela Fernandes percebeu que já não tinha qualidade de vida. Mudou-se para o concelho de Coruche, deixou para trás a rotina das filas de trânsito em Lisboa e encontrou no artesanato uma actividade a tempo inteiro, feita de paciência, cor e sossego.
Anabela Fernandes está sentada e rodeada de malas, blusas, fatos de banho, tapetes, passadeiras e peças únicas que criou em materiais diversos como lã, malha ou croché. Aos 59 anos, tem nas mãos uma agulha e na voz a tranquilidade de quem já não precisa de correr atrás dos minutos. Alfacinha de nascimento, viveu durante anos em Loures, na zona da Flamenga, mas há seis anos comprou casa em Carapuções, no concelho de Coruche, à procura de uma vida menos apressada.
A mudança não foi apenas geográfica. Foi uma ruptura com um quotidiano que, nas palavras da própria, já não lhe deixava vida. Durante 43 anos trabalhou como administrativa. Era empregada de escritório, lidava com o público e gostava desse contacto, mas o desgaste acumulado acabou por falar mais alto. Trabalhava em Alfornelos, na Amadora, e a deslocação que em tempos demorava cerca de um quarto de hora transformou-se, com a mudança para Coruche, numa viagem diária de hora e meia a duas horas.
O dia começava cedo demais, com Anabela Fernandes a levantar-se às cinco da manhã para ir trabalhar para Lisboa e regressar muitas vezes já sem energia. O trânsito era uma presença constante, sobretudo no IC17, e qualquer contratempo na Ponte Vasco da Gama podia transformar o regresso a casa num calvário. “Se houvesse um acidente, chegava a casa às 11 da noite”, recorda. Com o tempo, a rotina deixou de ser apenas cansativa e tornou-se insustentável. “Eu já não tinha vida, andava-me a arrastar”, conta. A fibromialgia agravava o peso dos dias. O stress das deslocações, dos horários e da vida urbana fez com que a doença se tornasse mais difícil de gerir. A decisão de sair daquele ciclo foi conversada em família, sobretudo com o marido. Não foi uma escolha fácil, até porque implicou uma redução no orçamento familiar, mas Anabela Fernandes sentiu que a alternativa era continuar a perder qualidade de vida. “Falei com o meu marido e disse: eu já não tenho vida, ando-me a arrastar”, recorda.
Foi em Carapuções que encontrou a paz que lhe faltava. A vida passou a ter outro ritmo, mais lento, mas não menos preenchido. Anabela diz-se rendida ao Ribatejo e ao sossego que encontrou no concelho de Coruche. A mudança de vida teve também reflexos na saúde. Anabela Fernandes conta que deixou de tomar muita medicação relacionada com a fibromialgia e que a medicação que mantém passou a ser tomada apenas duas vezes por semana. A própria associa essa melhoria à saída do stress e à vida mais calma que encontrou no campo.
O artesanato, que hoje ocupa os seus dias, foi recuperá-lo à infância. Começou, em Lisboa, quando tinha oito anos e aprendeu a fazer pequenas peças com vizinhas mais velhas, a quem chama “as velhotas”. Depois parou durante muitos anos. A vida profissional, a família e a rotina afastaram-na das linhas, das agulhas e dos trabalhos manuais. Mas a memória das mãos ficou guardada. Há cerca de dois anos e meio, quando o marido ficou desempregado, o orçamento familiar voltou a pesar nas decisões. Anabela Fernandes pensou então em recuperar aquilo que aprendera em criança. Começou a fazer tapetes de quarto, passadeiras e malas. Levou as peças que elaborou para a Amadora e percebeu que as peças tinham procura. Esse incentivo foi decisivo. Se o artesanato vendia bem e se a vida profissional a deixava cada vez mais sem forças, talvez estivesse ali a oportunidade de mudar de vez. Anabela falou novamente com o marido e decidiu dedicar-se a tempo inteiro à actividade. Há ano e meio tomou essa decisão.
Nas bancas, as peças de Anabela Fernandes chamam a atenção pela cor e pela diversidade. Há malas, casacos, peças de vestuário, acessórios e trabalhos de croché que resultam de muitas horas de paciência. O que começou por ser uma tentativa de complementar o orçamento tornou-se num modo de vida. Em Coruche, a artesã está ainda a dar os primeiros passos na venda ao público. Começou há cerca de um mês no mercado e participou pela primeira vez numa feira integrada no evento Sabores do Toiro. Casada, mãe de um filho de 34 anos que ficou na Flamenga, em Loures, Anabela Fernandes vive agora em Carapuções apenas com o marido e com dois cães, o Kiko e a Maria.


