Sociedade | 28-05-2026 14:43

Cancro da mama: tratar a doença sem esquecer a mulher

Cancro da mama: tratar a doença sem esquecer a mulher

No Dia Internacional pela Saúde da Mulher, que se assinala esta quinta-feira, 28 de Maio, dois especialistas do Hospital CUF Santarém defendem que o combate ao cancro da mama começa no diagnóstico precoce, mas não termina na cirurgia nem nos tratamentos. Hoje, salvar vidas continua a ser a prioridade absoluta, mas a medicina olha cada vez mais para a mulher como um todo: o corpo, a identidade, a auto-estima, a sexualidade, a fertilidade, a vida familiar e o futuro depois da doença.

O cancro da mama continua a ser o tumor mais frequente entre as mulheres portuguesas, mas a forma como a medicina e a sociedade encaram a doença mudou profundamente. O diagnóstico já não deve ser visto como uma sentença, mas como o início de um caminho clínico cada vez mais personalizado, onde a sobrevivência se cruza com a qualidade de vida. Prevenir, detectar cedo, tratar com segurança e reconstruir quando necessário são hoje etapas de uma mesma resposta: cuidar da mulher inteira, e não apenas do tumor.

Pedro Freitas Carvalho, coordenador da Unidade da Mama do Hospital CUF Santarém, lembra que o cancro da mama continua a ser o mais comum entre as mulheres em Portugal, estimando-se que uma em cada oito venha a desenvolver a doença ao longo da vida. Todos os anos são diagnosticados cerca de 9.000 novos casos no país, uma realidade que impõe vigilância, mas também permite uma mensagem de esperança. “Hoje, o diagnóstico de cancro da mama deixou de representar uma sentença de morte, para se tornar o ponto de partida de uma doença que, na grande maioria dos casos, é vencida”, afirma.

A evolução dos meios de diagnóstico, dos rastreios e dos tratamentos trouxe resultados que há algumas décadas seriam impensáveis. Ainda assim, a mensagem central continua a ser a mesma: o tempo conta. “O diagnóstico precoce salva vidas. O receio de descobrir a doença não pode ser um obstáculo à prevenção”, sublinha Pedro Freitas Carvalho, para quem cuidar da saúde da mama, realizar os exames recomendados e estar atenta aos sinais do corpo são gestos de responsabilidade e de amor-próprio.

Nas mulheres jovens, o impacto pode ser particularmente duro. A doença pode interferir com projectos de maternidade, fertilidade, carreira profissional, vida sexual, relação conjugal e dinâmica familiar, sobretudo quando há filhos pequenos. “Chorar, ter medo, sentir fraqueza e pedir ajuda psicológica não é sinal de derrota; é um acto de coragem e uma parte essencial do processo de cura”, sublinha o especialista.

É por isso que o acompanhamento numa Unidade da Mama é tão importante. O tratamento deixou de ser decidido por um único médico e passou a ser pensado por uma equipa multidisciplinar, onde intervêm cirurgiões, oncologistas, radioncologistas, radiologistas, anatomopatologistas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e especialistas em medicina física e reabilitação. Cada caso é discutido em conjunto, porque o cancro da mama não é uma doença única. Há tumores diferentes, mulheres diferentes e contextos de vida diferentes. “Duas vizinhas ou duas irmãs com o mesmo diagnóstico podem ter tratamentos totalmente diferentes”, resume.

Cirurgia: da cura à recuperação emocional

A cirurgia, que durante muito tempo foi vista apenas como o momento de retirar a doença, é hoje também um campo onde se joga parte da recuperação emocional da mulher. Luís Mata Ribeiro, especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética no Hospital CUF Santarém, é claro: “O diagnóstico de cancro da mama impõe uma dupla batalha: contra a doença biológica e contra a potencial desestruturação da própria identidade”.

A mama, lembra o cirurgião, “não é um órgão qualquer”. Está ligada à feminilidade, à maternidade, à intimidade e à forma como muitas mulheres se reconhecem no espelho. Quando a integridade da mama é ameaçada, há mulheres que vivem uma espécie de luto antecipado do próprio corpo. “O impacto na autoestima é profundo, manifestando-se muitas vezes como um sentimento de vulnerabilidade extrema e uma perda de controlo sobre a própria imagem”, afirma.
*Artigo desenvolvido na próxima edição semanal de O MIRANTE.

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