Sociedade | 29-05-2026 15:00

Família de Gonçalo Ribeiro Telles quer biblioteca do arquitecto no centro histórico de Coruche

Família de Gonçalo Ribeiro Telles quer biblioteca do arquitecto no centro histórico de Coruche
Vereadores e presidente de câmara de Coruche com familiares de Gonçalo Ribeiro Telles - foto O MIRANTE

A Avenida do Sorraia, em Coruche, passou a chamar-se Avenida Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, numa homenagem que o município considera um reconhecimento permanente à memória, pensamento e obra de uma figura maior da arquitectura paisagista portuguesa.

A família de Gonçalo Ribeiro Telles está em conversações com a Câmara de Coruche para que a biblioteca do arquitecto paisagista possa instalar-se no concelho, de preferência no centro histórico da vila. A informação foi avançada por Miguel Ribeiro Telles, filho do arquitecto, durante a cerimónia em que Coruche inscreveu o nome de Gonçalo Ribeiro Telles na sua toponímia. “Temos esperança que se chegue a um acordo com a autarquia por forma que a biblioteca possa vir para Coruche, nomeadamente para um espaço no centro histórico”, afirmou a O MIRANTE, revelando que o espólio é composto por cerca de quatro mil livros.
O filho do arquitecto explicou que a família também mantém contactos com a Universidade de Évora, instituição à qual Gonçalo Ribeiro Telles esteve ligado como professor durante vários anos. Ainda assim, sublinhou que não encara o processo como uma competição entre entidades, mas como uma tentativa de encontrar uma solução conciliadora. “Queremos encontrar uma solução que seja boa para todas as entidades e para aquilo que é uma vontade presumida do nosso pai, que era que viesse para Coruche”, afirmou.
A homenagem decorreu no dia 23 de Maio, com o descerramento da placa toponímica da Avenida Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles. Francisco Ribeiro Telles, filho mais velho do arquitecto, destacou a ligação profunda do pai a Coruche, terra de origem da família e espaço de afectos transmitido a filhos e netos. “O meu pai sempre esteve muito ligado a Coruche. A sua família era natural daqui, transmitiu essa ligação a filhos e netos e, portanto, era sempre com muito boa disposição que estava na localidade”, recordou.
Para Francisco Ribeiro Telles, Coruche foi para o pai “um local de refúgio, serenidade e lazer”. Era também na vila que mantinha a sua biblioteca e onde encontrava tempo para conviver com a família. “São muitas as recordações que temos e este lugar é simbólico, porque tem tudo a ver com ele”, afirmou, considerando a homenagem toponímica “um momento alto” da vivência da família em Coruche.
O presidente da Câmara de Coruche, Nuno Azevedo, afirmou que a autarquia assinalou “um momento muito significativo” para o concelho e para todos os que valorizam a memória, o território, a paisagem, o ambiente e o bem-comum. Segundo o autarca, Coruche inscreve de forma permanente no espaço público a memória de um homem cuja vida, pensamento e obra marcaram Portugal e também o concelho.
“Gonçalo Ribeiro Telles foi muito mais do que um reconhecido arquitecto paisagista. Foi um visionário, um homem que muito antes de muitos perceberem a importância do equilíbrio entre desenvolvimento, natureza e ambiente, já defendia a paisagem como património colectivo, como bem comum e condição essencial à qualidade de vida”, afirmou Nuno Azevedo.

Margarida Cancela d’Abreu recebe prémio em Coruche e deixa alertas sobre o novo aeroporto

A arquitecta paisagista Margarida Cancela d’Abreu defende que o Aeroporto Luís de Camões, no concelho de Benavente, pode ser uma oportunidade de desenvolvimento para a região, mas devem ser pensadas desde já questões como a habitação, as acessibilidades, os equipamentos e os espaços verdes.

A arquitecta paisagista Margarida Sá Luz Coruche Cancela d’Abreu recebeu, em Coruche, o Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem 2025, numa cerimónia que juntou a distinção do seu percurso profissional à homenagem pública ao arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, cujo nome passou a figurar na toponímia da vila. A galardoada recebeu o prémio pelo seu percurso nas áreas da arquitectura paisagista, do ambiente, da paisagem e do ordenamento do território. A distinção é simbolizada por um troféu em forma de árvore, da autoria do escultor Luís Cruz.
“É uma honra, mas sobretudo um grande prazer associar este prémio a Coruche e ao arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles”, afirmou a premiada a O MIRANTE, recordando a ligação antiga da sua família e da família do arquitecto à vila. “Conheci o professor desde sempre aqui na vila com muito respeito, primeiramente, e depois começámos a colaborar e ainda tivemos lutas muito grandes pelo equilíbrio do país”, acrescentou. A arquitecta paisagista sublinhou que a entrega do prémio em Coruche teve um significado especial, por ser uma terra ligada às memórias familiares. “Foi perfeito para mim pela ligação da minha família e da dele a Coruche. Todas as nossas férias eram passadas aqui. Sempre tivemos este relacionamento com a vila”, referiu.

Novo aeroporto:
planear por antecipação
Questionada sobre a construção do novo Aeroporto Luís de Camões, no concelho vizinho de Benavente e em território do Ribatejo, Margarida Cancela d’Abreu recuperou uma ideia que atribuiu ao professor Gonçalo Ribeiro Telles, a diferença entre crescimento e desenvolvimento. “Se nós quisermos, o aeroporto pode ser um grande desenvolvimento, tem de se planear por antecipação”, afirmou em declarações a O MIRANTE. Para a arquitecta paisagista, esse planeamento deveria já estar em curso, nomeadamente ao nível da habitação, das acessibilidades, dos transportes públicos e dos equipamentos necessários para acolher quem venha viver para a região.
Margarida Cancela d’Abreu defendeu que as acessibilidades públicas, “e não apenas o carro privado”, são fundamentais, tal como os espaços verdes, que devem ser pensados ao mesmo tempo que a habitação e os equipamentos. “Isto é um grande desafio, muito interessante, e os senhores arquitectos deviam começar já a planear esta questão do aeroporto para que ele se fixe no sítio certo, acompanhado daquilo que o professor também tentou fazer connosco”, afirmou.
Recordou ainda a experiência da Ponte Vasco da Gama, considerando que houve algum “desgosto” quando, na altura, foi afirmado por um ministro do governo de então que o Montijo e Alcochete não cresceriam de forma desordenada por terem planos directores municipais. “Os planos alteram-se com uma facilidade”, observou, defendendo que, no caso do aeroporto, é essencial antecipar o planeamento.
Apesar das reservas, Margarida Cancela d’Abreu deixou uma nota de esperança. Disse que, em tempos, levava alunos da Universidade de Évora à Quinta do Conde e ao Montijo para observarem bairros sem espaços verdes, mas reconheceu que, nos últimos anos, houve melhorias. “O empreiteiro já é obrigado a fazer os arruamentos, os passeios, espaços verdes, portanto há uma melhoria e tenhamos esperança”, concluiu.

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