Sociedade | 31-05-2026 12:00

Glúten é o inimigo invisível que obriga a viver em alerta permanente

Glúten é o inimigo invisível que obriga a viver em alerta permanente
Joana Gote aprendeu desde bebé a viver em alerta constante contra o glúten - foto O MIRANTE

Joana Gote, psicóloga clínica natural de Azambuja, foi diagnosticada com doença celíaca ainda em bebé. Para quem vive com esta doença auto-imune, uma simples migalha pode ser suficiente para provocar sintomas graves e danos no organismo.

O glúten não se vê, mas pode estar em todo o lado. Numa tábua mal limpa, numa torradeira partilhada, numa colher usada no alimento errado ou numa refeição garantida como segura, mas preparada num espaço contaminado. Para quem vive com doença celíaca, como Joana Gote, 25 anos, natural de Azambuja, a vigilância é permanente e a margem de erro praticamente inexistente.
Joana Gote foi diagnosticada ainda em bebé, durante a introdução alimentar. Através dos relatos da mãe, sabe que os primeiros sinais foram uma má resposta intestinal, acompanhada de inchaço, diarreia e refluxo. Antes do diagnóstico correcto, chegou mesmo a ser colocada a hipótese de existir um tumor intestinal. Por ter crescido com a doença, nunca conheceu outra realidade. “Nunca soube o que é entrar numa pastelaria e poder comer tudo”, conta a psicóloga clínica. Desde cedo se habituou a levar comida de casa para festas, escola, festivais ou qualquer outro contexto social. Em casa, a família organizou uma zona própria para os seus alimentos e utensílios, incluindo uma torradeira exclusiva, para evitar riscos de contaminação cruzada. Essa continua a ser uma das maiores preocupações. “As pessoas muitas vezes não percebem que não basta o prato não ter glúten. Se for preparado num espaço contaminado, pode fazer mal na mesma”, explica Joana Gote.
Ao longo da vida, Joana sentiu várias vezes falta de compreensão, sobretudo em restaurantes e hotéis. “Há quem confunda comida vegan com comida sem glúten”, lamenta. A jovem recorda situações em que passou mal depois de lhe garantirem que determinados alimentos não continham glúten. Para Joana Gote, ainda há muito desconhecimento sobre a doença celíaca e sobre as consequências que a ingestão de glúten pode provocar a médio e longo prazo. Na escola, a diferença também pesou. Levava sempre lanche de casa e evitava arriscar refeições na cantina. “Sentia-me diferente e tinha vergonha de ir à lancheira comer à parte”, admite. Ainda hoje, escolher um restaurante entre amigos pode ser motivo de ansiedade, sobretudo quando as opções seguras não são tidas em conta.
Apesar das dificuldades, reconhece que houve evolução. Ainda assim, considera que a sensibilização continua insuficiente, sobretudo em meios mais pequenos e rurais. Defende mais acções de consciencialização nas escolas, junto de crianças, professores e funcionários, para garantir maior segurança e inclusão. “Uma criança não devia crescer sempre preocupada se pode ou não comer alguma coisa”, sublinha. Para Joana Gote, o Dia Mundial da Consciencialização da Doença Celíaca é importante por dar visibilidade ao tema, mas a preocupação não deve ficar limitada a uma data no calendário. “Enquanto se falar sobre isto, para mim já é positivo”, conclui.

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