Cartoonistas defenderam arte como elemento da democracia e alertaram em VFX para pressões sobre sector
Debate no domingo marcou encerramento da Cartoon Xira em Vila Franca de Xira com alertas para as ameaças contra a liberdade de expressão.
O cartoonista António Antunes argumentou no domingo, em Vila Franca de Xira, que o cartoon enfrenta pressões de ordem política, apesar de continuar a ser uma forma legítima de crítica numa sociedade democrática.
“Há forças políticas que gostavam que não houvesse qualquer espécie de liberdade de expressão”, afirmou António Antunes num debate subordinado ao tema “A situação do Cartoon na imprensa em Portugal e no mundo” no fecho do Cartoon Xira, sublinhando que o cartoon assenta numa “concepção crítica” em que “não há partido que esteja acima da crítica”. Isto numa altura em que um eleito municipal do Chega quis censurar alguns dos desenhos da mostra.
O também curador do Cartoon Xira, António Antunes considerou que os cartoonistas estão frequentemente na linha de tiro, já que o seu trabalho suscita reacções negativas de forças políticas, religiosas ou outras entidades que não estão habituadas à crítica.
“O problema é tentarem silenciar, tentarem censurar”, afirmou, acrescentando que essas tentativas fazem parte da realidade da profissão.
António Antunes admitiu que o actual contexto político, em Portugal e no plano internacional, pode representar um risco de retrocessos na liberdade de expressão, mas manifestou confiança na "resiliência democrática".
“O cartoon não pode mudar a política. Quando muito, pode ser um pequeno grão de areia contra a engrenagem do poder”, afirmou.
Apesar disso, sublinhou a importância de continuar a exercer essa função crítica, ainda que num contexto marcado “por dificuldades económicas” e pela crise da imprensa escrita. O artista apontou a precariedade como um dos principais problemas do sector, referindo que o cartoon “paga muito mal” e que a maioria dos autores acumula outras actividades profissionais.
No decorrer do debate o cartoonista lamentou a falta de atenção mediática à Cartoon Xira, considerando que a exposição decorreu praticamente sem cobertura jornalística apesar da qualidade apresentada.
Iliteracia da imagem
No debate, a ilustradora Cristina Sampaio sublinhou também que o cartoon tem hoje um impacto limitado na capacidade de alterar a realidade política apesar da sua função crítica.
A ilustradora exemplificou com casos internacionais, referindo que figuras amplamente caricaturadas e alvo de humor político continuam a alcançar sucesso eleitoral, o que, no seu entender, relativiza o poder transformador do cartoon.
Ainda assim, defendeu a importância de manter essa forma de expressão como um espaço de reflexão e questionamento, comparando o trabalho dos cartoonistas a “carregar a tocha”, mesmo que os efeitos não sejam imediatos.
A autora chamou também a atenção para dificuldades na leitura das imagens por parte do público, considerando existir uma “iliteracia da imagem” que pode comprometer a compreensão das mensagens transmitidas.
Já o cartoonista André Carrilho alertou para os riscos associados à circulação de cartoons nas redes sociais, defendendo que a descontextualização das imagens pode alterar o seu significado original.
Segundo Carrilho, ao contrário do que acontecia nos jornais em papel, onde os cartoons surgiam enquadrados pelas notícias, hoje as imagens circulam isoladamente, sendo frequentemente reaproveitadas e interpretadas fora do contexto em que foram criadas.


