Abelhas garantem muito mais do que o mel e produtores avisam para o consumo de produto importado
No Dia Mundial das Abelhas, assinalado a 20 de Maio, o apicultor Filipe Dionísio alerta para o papel invisível destes insectos na produção alimentar, para os perigos da vespa-asiática e para a falta de informação que ainda alimenta medos e preconceitos.
Quando se fala em abelhas, a maioria das pessoas pensa em mel ou em picadas. Para Filipe Dionísio, fundador da empresa Abelhas e Companhia, sediada na freguesia de Póvoa da Isenta, concelho de Santarém, falar de abelhas é falar da própria sobrevivência humana. A propósito do Dia Mundial das Abelhas, assinalado a 20 de Maio, o apicultor lembra que grande parte da alimentação depende, directa ou indirectamente, da acção destes insectos. “Cerca de 70% do que consumimos está relacionado com a abelha”, sublinha Filipe Dionísio, destacando o papel fundamental da polinização na biodiversidade e na produção agrícola. Uma função discreta, muitas vezes ignorada, mas sem a qual muitos alimentos deixariam de chegar à mesa. Licenciado em Engenharia Zootécnica, Filipe Dionísio criou a Abelhas e Companhia em 2011, depois de ter experimentado vários projectos ligados ao mundo rural. Acabou por escolher a apicultura e hoje a empresa conta com cerca de 400 colmeias espalhadas pelos concelhos de Santarém e Cartaxo.
A actividade vai muito além da produção de mel. A empresa trabalha também com pólen, velas, própolis, sabonetes feitos a partir de produtos da colmeia, criação de abelhas rainhas e polinização profissional. Para Filipe Dionísio, continua a existir um grande desconhecimento sobre a importância das abelhas no equilíbrio dos ecossistemas, razão pela qual promove regularmente acções de sensibilização em escolas, sobretudo na zona de Lisboa. Nessas sessões, leva produtos da colmeia e até abelhas, para mostrar às crianças como funciona uma colónia, explicar a biologia da colmeia e dar a conhecer os benefícios dos produtos apícolas. Além do mel, destaca o pólen como “um superalimento”, o própolis como um antioxidante natural e até o veneno da abelha pelo potencial que tem vindo a ser estudado em contexto científico. “Há estudos recentes que mostram que o veneno da abelha conseguiu eliminar células do cancro da mama em laboratório em menos de 60 minutos”, refere.
Vespa-asiática e Varroa ameaçam colmeias
Apesar da importância das abelhas, os desafios à sua sobrevivência têm aumentado nos últimos anos. A principal ameaça continua a ser a Varroa, um ácaro parasita que enfraquece as colmeias, mas a vespa-asiática tornou-se um problema cada vez mais grave para os apicultores. “Só no ano passado perdemos cerca de 200 colmeias por causa da vespa-asiática”, lamenta Filipe Dionísio. As alterações climáticas também obrigaram a adaptar métodos de trabalho. “Temos de nos adaptar e preparar os enxames para que tenham o pico populacional na altura certa das florações”, explica. Para isso, a Abelhas e Companhia faz um acompanhamento rigoroso da alimentação e da saúde das colmeias. “Na nossa empresa há dois pilares fundamentais: nutrição e sanidade”, resume. O apicultor alerta que o controlo da Varroa exige pelo menos dois tratamentos anuais e critica o recurso crescente a métodos caseiros por parte de alguns apicultores, práticas que, diz, podem prejudicar as colmeias e comprometer a qualidade do mel.
Outro problema apontado por Filipe Dionísio são os mitos associados às abelhas. “As pessoas confundem muito a abelha com a vespa”, afirma, revelando que recebe frequentemente chamadas para recolher alegados enxames que afinal são ninhos de vespas. Quanto à ideia de que as abelhas são agressivas, o apicultor rejeita-a. “A abelha apenas pica para se defender, tanto que, se o fizer, depois morre”, sublinha. Para Filipe Dionísio, a falta de informação contribui para que muitas pessoas não percebam a importância das abelhas para o ecossistema e para a alimentação humana. “Se as pessoas percebessem verdadeiramente o impacto que as abelhas têm na nossa vida, talvez houvesse menos medo e mais preocupação em protegê-las”, considera. O apicultor deixa ainda um alerta aos consumidores sobre o mel vendido em algumas grandes superfícies comerciais, defendendo que devem procurar produtos 100% portugueses. “Muitos desses méis são misturas importadas da China, América do Sul ou Ucrânia, feitos à base de água e açúcar e misturados com uma pequena percentagem de mel verdadeiro”, alerta.


