Sociedade | 03-06-2026 12:00

Invasão de siluros no Tejo ganha escala alarmante em Mação

Invasão de siluros no Tejo ganha escala alarmante em Mação

Operação junto à barragem de Belver retirou 2,3 toneladas de siluros do rio Tejo, mais de três vezes o previsto pelos investigadores. Captura de 254 exemplares mostra que a espécie invasora está instalada em força e pode ultrapassar um milhão de adultos nas albufeiras de Belver, Fratel e Tejo Internacional.

Uma operação de remoção de siluros realizada no rio Tejo, junto à barragem de Belver, no concelho de Mação, confirmou a dimensão preocupante da invasão desta espécie predadora. Em apenas um dia efectivo de pesca foram capturados 254 exemplares, num total de 2,3 toneladas, resultado que surpreendeu os próprios investigadores envolvidos no projecto europeu Life Predator. “Estávamos a prever retirar cerca de 700 quilogramas. Retirámos mais do que três vezes aquilo que era esperado”, afirmou à Lusa Filipe Ribeiro, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, que classificou os resultados como superiores às previsões mais optimistas.
A intervenção decorreu numa extensão de cerca de 4,5 quilómetros do rio Tejo, entre a ponte de Belver e a barragem localizada junto à freguesia de Ortiga, mobilizando cerca de 70 pessoas, entre pescadores profissionais, vigilantes da natureza, técnicos do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, elementos da GNR, bombeiros e autarquias. Para Filipe Ribeiro, coordenador nacional do Life Predator, os números agora obtidos mostram que a população de siluros no Tejo é bastante maior do que se estimava. Com base nos dados recolhidos, os investigadores apontam para uma densidade próxima dos 300 siluros por quilómetro quadrado na albufeira de Belver. Extrapolando essa realidade para as albufeiras de Belver, Fratel e Tejo Internacional, a população poderá ultrapassar um milhão de exemplares adultos. O siluro, originário da Europa de Leste, é considerado uma das espécies invasoras mais preocupantes dos rios portugueses. Trata-se de um predador de topo, sem inimigos naturais relevantes nos ecossistemas nacionais, com elevada capacidade reprodutiva. Uma só fêmea pode produzir dezenas de milhares de ovos por ano, o que torna o controlo da espécie particularmente difícil. O impacto sobre a biodiversidade é uma das maiores preocupações dos especialistas. O siluro alimenta-se de espécies migradoras como a enguia-europeia, o sável, a lampreia e os barbos, peixes com importância ecológica, económica e também cultural nas comunidades ribeirinhas do Tejo.
Apesar do cenário preocupante, os investigadores sublinham que a acção demonstrou ser possível retirar grandes quantidades de siluros através de operações concentradas e bem preparadas. A maior parte dos exemplares capturados foi encaminhada para uma empresa de processamento de biomassa piscícola. Estão também a ser avaliadas formas de valorização alimentar da espécie, consumida em vários países da Europa Central e de Leste, desde que sejam garantidas todas as condições de segurança alimentar. Além das acções no terreno, o projecto Life Predator tem desenvolvido programas de sensibilização ambiental em escolas da bacia hidrográfica do Tejo, tendo já chegado a cerca de 5.000 alunos de mais de 60 estabelecimentos de ensino e de três dezenas de municípios.

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