Sociedade | 05-06-2026 07:00

Camiões continuam a não dar descanso a moradores de Alenquer

Camiões continuam a não dar descanso a moradores de Alenquer
Moradoras de Casais Novos, em Agosto de 2024, fotografadas por O MIRANTE durante uma reportagem sobre os protestos devido à passagem intensiva de camiões na zona - foto arquivo O MIRANTE

População dos Casais Novos e da Passinha não dorme uma noite sossegada há cinco anos. A Câmara de Alenquer não dá respostas ao problema e a população está indignada. Na última semana os moradores saíram à rua durante a noite e bloquearam o trânsito de muitos camiões que ali passam rumo à unidade logística da Santos e Vale, uma das maiores do país. Sentença do tribunal tem sido ignorada.

Os problemas causados pelas centenas de camiões que diariamente, de noite e de dia, atravessam as localidades de Casais Novos e Passinha, em Alenquer, rumo ao entreposto logístico da empresa Santos e Vale, continuam a gerar queixas e não têm fim à vista. Cansados e indignados por, há anos, ninguém lhes resolver o problema, os moradores saíram à rua no último fim-de-semana, durante a noite, e bloquearam temporariamente a passagem de dezenas de camiões, tentando sensibilizar os motoristas, a empresa e as autoridades para a necessidade de serem estudadas alternativas e por não estarem a ser cumpridas as ordens do tribunal.
O Supremo Tribunal Administrativo, recorde-se, decidiu em Fevereiro deste ano confirmar a decisão já proferida anteriormente de proibição de circulação de veículos pesados na localidade de Casal Machado, Rua do Batalheiro; na localidade de Casais Novos, Avenida da Juventude; e na localidade da Passinha, continuação da Avenida da Juventude, em Alenquer. A decisão interdita a passagem de veículos pesados no período nocturno e limita, durante o dia, a passagem a um máximo de 20 veículos pesados, algo que os moradores dizem não estar a ser respeitado.
O problema não é novo. Em 2020, poucos meses depois da abertura do centro logístico da Santos e Vale, o deputado municipal João Bernardo Galvão Teles levou a assunto a assembleia municipal. O MIRANTE foi o primeiro jornal a realizar uma reportagem no local com os moradores, em 2024, onde estes já davam conta do agravar do problema.
Após cinco anos de contestação a Câmara de Alenquer foi obrigada a comprar um terreno de 290 mil euros para criar um acesso alternativo à Santos e Vale, mas continua sem haver obra e o actual presidente do município, João Nicolau (PS), não consegue responder quando é que o projecto estará pronto e os trabalhos em condições de arrancar.

Luta pelo direito ao descanso
Em Setembro de 2020, recorde-se, a Câmara de Alenquer deu luz verde ao licenciamento para a construção do centro logístico da Santos e Vale, assente num estudo de tráfego que previa a passagem de 20 veículos pesados por dia e sete à noite, que nunca foi cumprido. Quem ali vive já conta mais de 350 todos os dias.
“Como é que, de um lado, se apresenta um projecto de licenciamento para um megacentro logístico com 48 cais de carga e descarga e, do outro lado, se aceita como válido um estudo de tráfego que diz que 48 cais de carga e descarga em 24 horas vão movimentar 20 camiões. Isto foi uma absoluta incúria. A empresa fez a câmara de parva e a câmara prestou-se a fazer o papel de parva porque este erro evidente é muito grosseiro”, criticou esta semana João Galvão Teles numa reportagem televisiva.
Uma das primeiras ideias da câmara para tentar serenar os ânimos foi impor um limite máximo de velocidade na rua de 20 km/h que ninguém cumpre. Às televisões, a Câmara de Alenquer, tal como havia feito com O MIRANTE, não esclareceu se houve falhas no licenciamento do centro logístico nem revelou quantos camiões passam diariamente nas duas localidades. Até hoje não pensa rever a licença atribuída à empresa, que garante sempre ter cumprido com as regras do licenciamento apesar de serem óbvias as várias imagens de camiões com o seu nome a cruzarem as duas localidades. A Santos e Vale rejeita as acusações feitas pelos moradores e afirma que muitos dos camiões não estão ligados à sua operação, negando qualquer comportamento irregular dos motoristas.

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