Sociedade | 05-06-2026 12:50
População de Árgea contra unidade de biometano recusa ouvir empresa em reunião
foto ilustrativa
Pedido da Gás da Terra para apresentar o projecto da unidade de biometano em reunião da população de Árgea foi rejeitado. Comunidade diz que o encontro não é para debater as virtudes do investimento, mas para explicar “por que razão não pode ser em Árgea”.
A população de Árgea, no concelho de Torres Novas, não está disponível para ouvir a empresa promotora da unidade de biometano na reunião pública marcada para 8 de Junho, às 21h00, na Sociedade Filarmónica Argense. A Gás da Terra pediu entre 15 a 20 minutos para apresentar o projecto, mas os organizadores recusaram, entendendo que o encontro não deve ser transformado numa sessão de apresentação da empresa, mas antes num momento de esclarecimento da comunidade sobre os fundamentos da oposição à localização prevista.
“Não vamos debater se a unidade de biometano deve ser em Árgea. Vamos explicar por que razão não pode ser em Árgea”, afirmam os promotores da reunião, sublinhando que a diferença entre as duas posições é essencial para compreender a decisão. Segundo os mesmos, a sessão de dia 8 não pretende discutir os méritos técnicos ou económicos do projecto, mas dar a conhecer à população as razões “concretas, factuais e fundamentadas” pelas quais consideram que a unidade não deve ser instalada em Árgea nem junto das aldeias vizinhas.
A recusa surge num contexto de crescente contestação local a um projecto que, como O MIRANTE noticiou, prevê a instalação de uma unidade de produção de biometano com cerca de 4,8 hectares e capacidade para receber perto de 100 mil toneladas de resíduos biodegradáveis por ano, o equivalente a cerca de 268 toneladas diárias. A consulta pública decorre até 25 de Junho, num processo que tem levantado preocupações relacionadas com tráfego pesado, maus cheiros, emissões, consumo de água, risco para solos e linhas de água e impacto na qualidade de vida das populações.
Os organizadores da reunião acusam a empresa de ter deixado a comunidade fora do processo durante demasiado tempo. Alegam que, até 21 de Maio, a população local desconhecia a existência do projecto e que não houve qualquer iniciativa da Gás da Terra para se apresentar aos moradores, ouvir preocupações ou perceber o território onde pretende instalar a unidade. “A consulta pública avançou. O projecto avançou. A comunidade ficou de fora”, sustentam.
Perante esse histórico, defendem que a empresa é livre de organizar as suas próprias sessões de esclarecimento, “quando e como entender”, mas não deve ocupar tempo numa reunião convocada pela comunidade para estruturar a oposição ao projecto. “O que não vamos fazer é transformar uma reunião da nossa comunidade numa sessão de relações públicas de um promotor que, durante meses, ignorou completamente essa mesma comunidade”, referem.
A contestação à localização da unidade tem vindo a ganhar expressão pública. A União de Freguesias de Olaia e Paço já assumiu posição desfavorável à instalação da infraestrutura na localização prevista, defendendo que persistem dúvidas relevantes sobre os impactos ambientais e territoriais. Também foi lançada uma petição pública intitulada “Defender Árgea: Não à Unidade de Biometano da Gasdaterra junto à aldeia”, que exige, entre outros pontos, parecer desfavorável da Agência Portuguesa do Ambiente, relocalização para zona industrial, sessão pública presencial em Árgea e prolongamento do prazo de consulta pública.
O município do Entroncamento também já manifestou atenção e preocupação com o processo, enquanto o presidente da Câmara de Torres Novas, José Trincão Marques, afirmou publicamente que nunca deu concordância à instalação de qualquer unidade de produção de biometano no concelho e que acompanhará o processo defendendo o ambiente, a biodiversidade, a paisagem e a qualidade de vida das populações.
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