Sociedade | 06-06-2026 15:00

Cancro da mama: tratar a doença sem esquecer a mulher

Cancro da mama: tratar a doença sem esquecer a mulher
Pedro Freitas Carvalho, coordenador da Unidade da Mama do Hospital CUF Santarém, com Helena Teixeira, que recuperou e voltou à rotina após o tratamento - foto O MIRANTE

Helena Teixeira descobriu um cancro da mama numa ecografia de rotina, sem nunca ter sentido qualquer sinal de alerta. Foi operada e fez reconstrução mamária e radioterapia no Hospital CUF Santarém. Tratar o cancro começa no diagnóstico precoce, mas não termina na cirurgia nem nos tratamentos. Hoje, afirmam dois especialistas desse hospital, salvar vidas é a prioridade, mas a medicina olha cada vez mais para a mulher por inteiro, preservando a saúde, identidade, auto-estima e qualidade de vida.

Quando Helena Teixeira, 53 anos, entrou no Hospital CUF Santarém para fazer uma ecografia mamária de rotina, fê-lo “com uma tranquilidade absoluta”. Nunca tinha sentido um nódulo ou detectado qualquer alteração que a fizesse antecipar o diagnóstico. Mas no final de 2024 ouviu as palavras que nenhuma mulher quer ouvir: tinha cancro da mama. “Foi um balde de água fria”, recorda a mulher, residente em Tomar.
Sem história familiar de cancro da mama, Helena foi surpreendida pela doença, sentiu “medo”, mas procurou respostas. Pesquisou especialistas e decidiu que queria ser tratada no Hospital CUF Santarém. Seguiram-se a cirurgia para remoção do tumor, liderada pelo coordenador da Unidade da Mama do Hospital CUF Santarém, Pedro Freitas Carvalho, a reconstrução mamária com os próprios tecidos e a radioterapia. Hoje, sente-se bem, já retomou a sua rotina normal e continua em acompanhamento.
Olhando para trás, valoriza sobretudo a rapidez, a articulação entre equipas e a segurança que sentiu ao longo do processo. “A grande vantagem é ter um seguimento onde a pessoa passa por várias especialidades, vários profissionais, e todo o processo clínico fica num único centro de informação”, afirma. À medida que o tratamento avançava, diz, “o medo foi desaparecendo”.
No Dia Internacional pela Saúde da Mulher, que se assinala a 28 de Maio, a história de Helena ajuda a dar rosto a uma mensagem defendida por dois especialistas do Hospital CUF Santarém: o combate ao cancro da mama começa no diagnóstico precoce, mas não termina na cirurgia nem nos tratamentos. Hoje, salvar vidas continua a ser a prioridade absoluta, mas a medicina olha cada vez mais para a mulher como um todo: o corpo, a identidade, a auto-estima, a sexualidade, a fertilidade, a vida familiar e o futuro depois da doença.

Nove mil novos casos por ano
Pedro Freitas Carvalho lembra que o cancro da mama continua a ser o mais comum entre as mulheres em Portugal, estimando-se que uma em cada oito venha a desenvolver a doença ao longo da vida. Todos os anos são diagnosticados cerca de 9.000 novos casos no país. “Hoje, o diagnóstico de cancro da mama deixou de representar uma sentença de morte para se tornar o ponto de partida de uma doença que, na grande maioria dos casos, é vencida”, afirma.
A evolução dos meios de diagnóstico, dos rastreios e dos tratamentos trouxe resultados há algumas décadas impensáveis. Ainda assim, a mensagem central continua a ser a mesma: “O diagnóstico precoce salva vidas. O receio de descobrir a doença não pode ser um obstáculo à prevenção”, sublinha o coordenador da Unidade da Mama para quem cuidar da saúde, fazer exames e estar atento aos sinais do corpo são gestos de responsabilidade e amor-próprio.
Um dos sinais que exige atenção é o aumento de diagnósticos em mulheres mais jovens. Pedro Freitas Carvalho refere que, entre 2001 e 2021, Portugal registou um crescimento significativo da incidência de cancro da mama nesta faixa etária, acompanhando uma tendência internacional. Mais de mil mulheres com menos de 45 anos são diagnosticadas anualmente no país. O problema, explica, é duplo: por um lado há menor percepção de risco; por outro, os tumores em mulheres jovens podem ter características mais agressivas. Por isso, há sinais que nunca devem ser ignorados: nódulo ou massa palpável na mama ou na axila, alterações no formato ou tamanho da mama, retracção ou alteração da pele, secreção anormal pelo mamilo e dor mamária persistente ou localizada.
Mas falar de cancro da mama não é só falar da doença. É falar de medo, de corpo, de feminilidade, de maternidade, de sexualidade e de identidade. “O cancro da mama mexe com o órgão que, na nossa cultura, está mais associado à feminilidade, maternidade e auto-estima”, afirma Pedro Freitas Carvalho, defendendo que o sofrimento psicológico tem contornos muito específicos e varia conforme a fase de vida de cada mulher, com impacto particularmente duro nas jovens, sobretudo quando há filhos pequenos. Helena, mãe de três filhos, reconhece essa dimensão: mesmo nos momentos de maior ansiedade, procurou transmitir confiança e tranquilidade à família.
“Chorar, ter medo, sentir fraqueza e pedir ajuda psicológica não é sinal de derrota; é um acto de coragem e uma parte essencial do processo de cura”, sublinha Pedro Freitas Carvalho. É por isso que o tratamento em Unidade da Mama deixou de ser decidido por um único médico e passou a ser pensado por uma equipa multidisciplinar, onde intervêm cirurgiões, oncologistas, radioncologistas, radiologistas, anatomopatologistas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e especialistas em medicina física e reabilitação.

Cancro da mama sem luto antecipado do corpo

A cirurgia, que durante muito tempo foi vista apenas como o momento de retirar a doença, é hoje também um campo onde se joga parte da recuperação emocional da mulher. Luís Mata Ribeiro, especialista em cirurgia plástica reconstrutiva e estética no Hospital CUF Santarém, é claro: “O diagnóstico de cancro da mama impõe uma dupla batalha: contra a doença biológica e contra a potencial desestruturação da própria identidade”.
A mama, lembra o cirurgião, “não é um órgão qualquer”. Está ligada à feminilidade, à maternidade, à intimidade e à forma como muitas mulheres se reconhecem no espelho. Quando a integridade da mama é ameaçada, há mulheres que vivem uma espécie de luto antecipado do próprio corpo. “O impacto na auto-estima é profundo, manifestando-se muitas vezes como um sentimento de vulnerabilidade extrema e uma perda de controlo sobre a própria imagem”, afirma.
Voltando ao caso de Helena, a prioridade era clara: “Não tinha propriamente medo de ficar sem a mama. Queria era ficar sem o cancro”. Ainda assim, reconhece o impacto da reconstrução na auto-estima, na postura e na forma como a mulher regressa à sua vida. “O facto de se poder fazer logo uma reconstrução é meio caminho andado para a pessoa levantar a cabeça e seguir em frente”, diz.
Nas consultas, há mulheres que receiam olhar-se ao espelho depois da cirurgia. Outras temem a reacção do companheiro ou companheira. Muitas interrogam-se sobre a intimidade, a roupa, a praia, o banho, a forma como se irão mover ou vestir. “Muitas vezes, o alívio de saber que o tumor tem cura é imediatamente seguido pelo peso da pergunta: ‘Mas como é que eu vou ficar?’”, conta Luís Mata Ribeiro.
Em muitos casos, explica o especialista, é possível tratar o tumor e reconstruir ou preservar a mama na mesma intervenção. Enquanto o cirurgião oncológico remove o tumor, o cirurgião plástico reorganiza o tecido mamário. Quando a reconstrução imediata é possível, “a mulher adormece com o tumor, mas acorda com a mama reconstruída”, explica.
As opções de reconstrução incluem os implantes e expansores, mas a microcirurgia trouxe a possibilidade de reconstrução autóloga, feita com tecidos da própria doente, como pele e gordura do abdómen ou das coxas. A vantagem, explica, é que a nova mama é feita de tecido vivo: envelhece, acompanha as alterações de peso e tem um toque mais natural. E para muitas mulheres o prazer de cuidar de si é parte da cura.
“O cancro pode mudar a sua história, mas não tem de apagar a sua identidade”, diz Luís Mata Ribeiro, numa mensagem dirigida às mulheres que têm medo de não voltar a reconhecer-se depois do tratamento. Helena Teixeira deixa uma mensagem semelhante. “A pessoa chora, fica revoltada, mas depois tem de passar à fase seguinte. Chorar o que for preciso, mas levantar a cabeça”. Hoje, sente que o pior já passou.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias