Projecto pioneiro Envelhecer com os Amigos da Aldeia do Caos no Biscainho dá mais um passo
O projecto da Aldeia do Caos nasceu de um grupo de caminheiros, atravessou a pandemia, sobreviveu a dezenas de terrenos em carteira e quer agora transformar 11 hectares no Biscainho numa comunidade sénior colaborativa, ecológica, intergeracional e aberta à população.
O Plano de Pormenor do Conjunto Residencial Sénior Colaborativo e de Solidariedade Social – Aldeia do Caos, previsto para a freguesia de Biscainho, concelho de Coruche, seguiu para apreciação das entidades competentes, num processo coordenado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo. A informação foi avançada a O MIRANTE por Francisco Marques, presidente do Conselho de Administração da Aldeia do Caos – Cooperativa de Habitação e Construção e de Solidariedade Social, CRL, que vê neste passo uma das novidades mais relevantes dos últimos tempos.
A Aldeia do Caos quer construir no Biscainho cerca de uma centena de habitações térreas, de pequena dimensão, inseridas num modelo de aldeia colaborativa, ecológica, caminhável, inclusiva, solidária e intergeracional. O conceito assenta na ideia de “um jardim com casas e não casas com jardim”. O plano prevê habitação, equipamentos, serviços, espaços públicos de convívio, bosque, piscina, hortas, pomar, linha de água com represa, zona de prado ou relvado, bolsa de estacionamento e a preservação de um sobreiro centenário.
A cooperativa nasceu formalmente em 19 de Fevereiro de 2020, mas a ideia é anterior. Francisco Marques recorda que tudo começou no seio do CAOS – Círculo de Actividades Oxigénio & Sol, grupo de caminheiros com mais de duas décadas de existência, onde a amizade, a entreajuda e o convívio inspiraram o projecto “Envelhecer com os Amigos”. O primeiro impulso surgiu há cerca de 11 anos, mas a ideia ganhou corpo em 2019, depois de uma publicação sobre cohousing ter despertado forte interesse entre membros do grupo.
A pandemia apareceu quase ao mesmo tempo que a cooperativa, mas o projecto não parou. Segundo Francisco Marques, foram visitados presencialmente 61 terrenos, desde o Algarve até Leiria, e pesquisados muitos mais pela Internet, antes da escolha da propriedade no Biscainho. Pesaram na decisão a proximidade à Grande Lisboa, Setúbal, Santarém e outras cidades de origem dos cooperadores, a tranquilidade, a ausência de poluição, a existência de uma linha de água e o bom acolhimento local.
O terreno situa-se junto ao Biscainho, localidade que a cooperativa quer integrar. Francisco Marques sublinha que a Aldeia do Caos não pretende criar um gueto nem uma comunidade fechada sobre si mesma. “Queremos fazer parte da comunidade do Biscainho”, afirma. A proposta inicial chegou a apontar para 150 casas, mas foi reduzida para cerca de uma centena, para acomodar melhor os serviços, os espaços colectivos e a baixa densidade pretendida. A cooperativa admite soluções modulares e métodos construtivos mais sustentáveis, incluindo madeira ou blocos de cânhamo.
Projecto não é um negócio imobiliário
Além das casas, a Aldeia do Caos prevê uma zona de serviços com cerca de 1.500 metros quadrados, aberta à população. Aí poderão instalar-se uma unidade de saúde, restauração, mercearia, cabeleireiro, lavandaria, engomadoria ou outros serviços. A intenção não é vender esses espaços, mas concessioná-los, para garantir que os usos se mantêm e que a aldeia não se transforma em negócio imobiliário. O objectivo é criar uma comunidade onde pessoas que se conhecem, ou chegam por laços de confiança, possam viver, conviver, envelhecer e ajudar-se mutuamente. Para entrar na cooperativa, cada candidatura tem de ser subscrita por dois cooperadores.
Actualmente, a cooperativa tem cem cooperadores e está esgotada, existindo lista de espera. A filosofia da Aldeia do Caos procura recuperar o melhor das antigas aldeias portuguesas: o convívio, a proximidade, a segurança, a entreajuda e a familiaridade entre vizinhos, mas sem a pobreza, o desconforto, a falta de infraestruturas, a ausência de serviços ou o isolamento. O projecto é sénior no nome oficial, mas os promotores preferem falar de uma comunidade intergeracional.
Câmara vê mérito no investimento e quer projecto concretizado
O presidente da Câmara de Coruche, Nuno Azevedo, considera o conceito “extremamente interessante” e entende que pode servir de exemplo a outras zonas do país. O autarca destaca que a câmara já se pronunciou a nível urbanístico, que os técnicos municipais fizeram sugestões e que os promotores introduziram alterações. O processo carece agora da aprovação das entidades competentes, por envolver matérias relacionadas com o Plano Director Municipal.
O autarca garante que o município está comprometido com o processo, apesar de se tratar de uma iniciativa privada, e reconhece mérito ao investimento e ao impacto que poderá ter no Biscainho. Salienta que o projecto pode trazer serviços inexistentes na freguesia, alguns deles abertos à população, e considera que a localidade e o concelho têm tudo a ganhar. “Não será por nós” que o projecto deixará de avançar, afirma.
Do lado da cooperativa, há reconhecimento pelo apoio da autarquia, mas também frustração com a lentidão do processo. Francisco Marques lembra que o projecto foi entregue em 2022 e que, em 2026, ainda não tem aprovação final. O dirigente, de 73 anos, admite que o tempo pesa. “Aprovar isto, os projectos, infraestruturas, as obras, a casa… terei quantos anos?”, questiona, lembrando que há cooperadores que já desistiram e que o vice-presidente da cooperativa morreu entretanto.


