Sociedade | 16-06-2026 07:00

Projecto pioneiro Envelhecer com os Amigos da Aldeia do Caos no Biscainho dá mais um passo

Projecto pioneiro Envelhecer com os Amigos da Aldeia do Caos no Biscainho dá mais um passo

O projecto da Aldeia do Caos nasceu de um grupo de caminheiros, atravessou a pandemia, sobreviveu a dezenas de terrenos em carteira e quer agora transformar 11 hectares no Biscainho numa comunidade sénior colaborativa, ecológica, intergeracional e aberta à população.

O Plano de Pormenor do Conjunto Residencial Sénior Colaborativo e de Solidariedade Social – Aldeia do Caos, previsto para a freguesia de Biscainho, concelho de Coruche, seguiu para apreciação das entidades competentes, num processo coordenado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo. A informação foi avançada a O MIRANTE por Francisco Marques, presidente do Conselho de Administração da Aldeia do Caos – Cooperativa de Habitação e Construção e de Solidariedade Social, CRL, que vê neste passo uma das novidades mais relevantes dos últimos tempos.
A Aldeia do Caos quer construir no Biscainho cerca de uma centena de habitações térreas, de pequena dimensão, inseridas num modelo de aldeia colaborativa, ecológica, caminhável, inclusiva, solidária e intergeracional. O conceito assenta na ideia de “um jardim com casas e não casas com jardim”. O plano prevê habitação, equipamentos, serviços, espaços públicos de convívio, bosque, piscina, hortas, pomar, linha de água com represa, zona de prado ou relvado, bolsa de estacionamento e a preservação de um sobreiro centenário.
A cooperativa nasceu formalmente em 19 de Fevereiro de 2020, mas a ideia é anterior. Francisco Marques recorda que tudo começou no seio do CAOS – Círculo de Actividades Oxigénio & Sol, grupo de caminheiros com mais de duas décadas de existência, onde a amizade, a entreajuda e o convívio inspiraram o projecto “Envelhecer com os Amigos”. O primeiro impulso surgiu há cerca de 11 anos, mas a ideia ganhou corpo em 2019, depois de uma publicação sobre cohousing ter despertado forte interesse entre membros do grupo.
A pandemia apareceu quase ao mesmo tempo que a cooperativa, mas o projecto não parou. Segundo Francisco Marques, foram visitados presencialmente 61 terrenos, desde o Algarve até Leiria, e pesquisados muitos mais pela Internet, antes da escolha da propriedade no Biscainho. Pesaram na decisão a proximidade à Grande Lisboa, Setúbal, Santarém e outras cidades de origem dos cooperadores, a tranquilidade, a ausência de poluição, a existência de uma linha de água e o bom acolhimento local.
O terreno situa-se junto ao Biscainho, localidade que a cooperativa quer integrar. Francisco Marques sublinha que a Aldeia do Caos não pretende criar um gueto nem uma comunidade fechada sobre si mesma. “Queremos fazer parte da comunidade do Biscainho”, afirma. A proposta inicial chegou a apontar para 150 casas, mas foi reduzida para cerca de uma centena, para acomodar melhor os serviços, os espaços colectivos e a baixa densidade pretendida. A cooperativa admite soluções modulares e métodos construtivos mais sustentáveis, incluindo madeira ou blocos de cânhamo.

Projecto não é um negócio imobiliário
Além das casas, a Aldeia do Caos prevê uma zona de serviços com cerca de 1.500 metros quadrados, aberta à população. Aí poderão instalar-se uma unidade de saúde, restauração, mercearia, cabeleireiro, lavandaria, engomadoria ou outros serviços. A intenção não é vender esses espaços, mas concessioná-los, para garantir que os usos se mantêm e que a aldeia não se transforma em negócio imobiliário. O objectivo é criar uma comunidade onde pessoas que se conhecem, ou chegam por laços de confiança, possam viver, conviver, envelhecer e ajudar-se mutuamente. Para entrar na cooperativa, cada candidatura tem de ser subscrita por dois cooperadores.
Actualmente, a cooperativa tem cem cooperadores e está esgotada, existindo lista de espera. A filosofia da Aldeia do Caos procura recuperar o melhor das antigas aldeias portuguesas: o convívio, a proximidade, a segurança, a entreajuda e a familiaridade entre vizinhos, mas sem a pobreza, o desconforto, a falta de infraestruturas, a ausência de serviços ou o isolamento. O projecto é sénior no nome oficial, mas os promotores preferem falar de uma comunidade intergeracional.

Câmara vê mérito no investimento e quer projecto concretizado

O presidente da Câmara de Coruche, Nuno Azevedo, considera o conceito “extremamente interessante” e entende que pode servir de exemplo a outras zonas do país. O autarca destaca que a câmara já se pronunciou a nível urbanístico, que os técnicos municipais fizeram sugestões e que os promotores introduziram alterações. O processo carece agora da aprovação das entidades competentes, por envolver matérias relacionadas com o Plano Director Municipal.
O autarca garante que o município está comprometido com o processo, apesar de se tratar de uma iniciativa privada, e reconhece mérito ao investimento e ao impacto que poderá ter no Biscainho. Salienta que o projecto pode trazer serviços inexistentes na freguesia, alguns deles abertos à população, e considera que a localidade e o concelho têm tudo a ganhar. “Não será por nós” que o projecto deixará de avançar, afirma.
Do lado da cooperativa, há reconhecimento pelo apoio da autarquia, mas também frustração com a lentidão do processo. Francisco Marques lembra que o projecto foi entregue em 2022 e que, em 2026, ainda não tem aprovação final. O dirigente, de 73 anos, admite que o tempo pesa. “Aprovar isto, os projectos, infraestruturas, as obras, a casa… terei quantos anos?”, questiona, lembrando que há cooperadores que já desistiram e que o vice-presidente da cooperativa morreu entretanto.

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