Eucalipto, abandono e caminhos bloqueados deixam autarcas a temer o pior
Eucalipto representa cerca de 52% da área florestal no distrito de Santarém, com concelhos onde ultrapassa os 70% e chega perto dos 85%. Em vésperas do período crítico de incêndios, autarcas avisam para caminhos bloqueados, árvores caídas, combustível acumulado e falta de meios para responder a uma floresta cada vez mais vulnerável.
O eucalipto ocupa mais de metade da área florestal no distrito de Santarém. Em vésperas de mais uma época de incêndios, altura em que autarcas, bombeiros e Protecção Civil voltam a falar em caminhos bloqueados, árvores caídas e carga combustível acumulada, a dimensão da mancha de eucaliptal ganha peso político e territorial. No conjunto dos 21 concelhos do distrito, o eucalipto representa cerca de 52% da área florestal, o equivalente a mais de 208 mil hectares. A concentração é particularmente expressiva em Rio Maior, onde chega aos 84,98%, em Vila Nova da Barquinha, com 79,65%, em Alpiarça, com 78,18%, em Ferreira do Zêzere, com 75,08%, em Santarém, com 73,26%, em Sardoal, com 71,40%, e em Alcanena, com 71,17%. São números que mostram uma paisagem pouco diversificada e um território onde a prevenção depende apenas de limpezas à pressa e de planos aprovados à entrada do Verão.
Abrantes, com 31.751 hectares de eucalipto, é o concelho do distrito com maior área absoluta desta espécie. Seguem-se a Chamusca, com 27.715 hectares, Rio Maior, com 18.253, Mação, com 15.970, Santarém, com 13.615, e Coruche, com 13.346. A geografia do risco atravessa o Médio Tejo, a Lezíria e o Vale do Tejo. O problema agravou-se depois da tempestade Kristin. O presidente da Câmara de Abrantes e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, Manuel Jorge Valamatos, admitiu que o risco “aumentou significativamente”, apontando preocupação especial para Ourém, Tomar e Ferreira do Zêzere, onde continuam muitas árvores caídas e muita carga combustível acumulada.
Em Ourém, Orlando Cavaco, em representação dos presidentes de junta do concelho, foi ainda mais directo. Falou numa destruição “avassaladora” e alertou para cerca de 600 quilómetros de caminhos florestais por desobstruir. “Não basta exigir, é preciso dar condições”, disse. Também em Tomar e Ferreira do Zêzere os avisos chegaram cedo. Tiago Carrão, presidente da Câmara de Tomar, disse que a situação “vai criar um pasto para incêndios” e admitiu que há muito trabalho por fazer sem garantia de que seja possível concluí-lo. Bruno Gomes, presidente da Câmara de Ferreira do Zêzere, foi igualmente claro: não haverá capacidade para desobstruir todas as vias vicinais e estradas florestais a tempo do Verão, por ser “humanamente impossível” garantir que todos os acessos fiquem libertos.
Santarém aprovou entretanto o Plano Operacional Municipal 2026, que prevê mais de 430 hectares de gestão de combustível e uma resposta mais articulada entre bombeiros, sapadores, forças de segurança e Protecção Civil. Emanuel Campos, vice-presidente da câmara com o pelouro da Protecção Civil, classificou o plano como um passo decisivo para reforçar a prevenção e proteger pessoas, território e recursos naturais. É uma medida necessária, mas os números do eucalipto e os alertas dos autarcas mostram que o desafio é maior do que qualquer plano municipal.


