Kemuel luta por mais autonomia e família de Marinhais lança apelo
Aos sete anos, Kemuel Serras já contrariou muitos dos prognósticos que acompanharam o seu nascimento. Nasceu com espinha bífida, mas conserva uma força que comove quem o conhece.
Agora, os pais, Carlos e Poliana Serras, lançaram uma campanha solidária para reunir mais de 30 mil euros para um tratamento com células estaminais no estrangeiro, na esperança de lhe dar mais força, sensibilidade e autonomia.
A história de vida de Kemuel começou marcada por um choque. O diagnóstico surgiu durante a ecografia morfológica, quando a gravidez ia a meio. O pai, Carlos Serras, recorda a inquietação da médica e o silêncio que foi crescendo até à notícia que nenhum pai está preparado para ouvir: havia um problema grave na coluna do bebé. Ao casal foi colocada a hipótese de interromper a gravidez. Mas a decisão, dizem, veio do “coração e da fé”. A mãe, Poliana Serras, foi clara: seguiria em frente. Carlos respondeu que estaria ao lado dela. “E continuo a estar”, afirma.
A gravidez foi vivida entre medo, lágrimas, fé e apoio da família, mas também com incompreensão de quem achava que a criança não devia vir ao mundo. Kemuel nasceu por cesariana na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, e foi transferido para o Hospital Dona Estefânia, onde foi operado poucas horas depois para fechar a malformação na coluna. A mãe só o viu de passagem, levado para a incubadora. Ficou dois dias internada mas, apesar das dores, só pensava em poder estar com o filho. “Parei de me queixar das dores para poder sair mais cedo”. Kemuel permaneceu 21 dias nos cuidados intensivos, com os pais a passarem o dia ao seu lado e a saírem à noite de coração apertado.
Apesar dos receios de hidrocefalia e de outras complicações associadas à mielomeningocele, uma das formas mais graves de espinha bífida, Kemuel foi superando etapas. Não precisou de válvula, começou a alimentar-se, foi para casa e cresceu a desafiar limites. “Os médicos diziam que poderia não gatinhar e ele gatinhou”, recorda a mãe e cuidadora informal de Kemuel. Aprendeu a levantar-se agarrado, a subir para o sofá, a brincar, a rir e a conquistar todos à volta. “É um doce de criança”, diz o pai.
Mas o sorriso fácil não apaga as dificuldades diárias. Kemuel tem pouca sensibilidade nos pés, não anda sozinho, usa fraldas devido à bexiga neurogénica e precisa de acompanhamento constante. Frequenta o primeiro ano e, a nível cognitivo, acompanha a turma. Tem apoio de terapia da fala e terapia ocupacional. A fisioterapia, essencial para a sua condição, é feita de forma intermitente no sistema público, por blocos de sessões que acabam e obrigam a novas esperas. A família lamenta não conseguir assegurar fisioterapia intensiva, que considera fundamental, mas financeiramente impossível.
Além das terapias, há talas, consultas, deslocações, fraldas, equipamentos e cirurgias. Kemuel já foi submetido a seis intervenções cirúrgicas, de neurologia, ortopedia e urologia. Esteve três anos à espera por uma operação, o que obrigou, segundo o pai, a uma solução mais agressiva do que poderia ter sido necessária se tivesse acontecido mais cedo. A cadeira-de-rodas vertical que usa foi conseguida através de uma angariação feita pelo avô, no Brasil, país de onde a família materna é natural.
Campanha para tratamento no estrangeiro
É neste contexto que Carlos e Poliana procuram agora um tratamento com células estaminais fora de Portugal. Têm contactos com unidades no Paraguai e na Tailândia e mostram a O MIRANTE as respostas dos hospitais onde Kemuel foi aceite. Segundo os pais, a intervenção poderá ajudar na função motora, na força muscular, na sensibilidade e no controlo da bexiga e do intestino. A família sabe que não há garantias, mas agarra-se à possibilidade de melhorar a qualidade de vida do filho. O custo ultrapassa os 30 mil euros, podendo chegar a 37 mil dólares só na intervenção na Tailândia, sem contar com viagens.
A campanha “Ajudem o Kemuel, o menino com espinha bífida” foi lançada há cerca de duas semanas e já reuniu mais de quatro mil euros. Carlos Serras, agente da polícia na Divisão de Vila Franca de Xira, sublinha a transparência: o dinheiro é guardado numa conta separada e será usado apenas em benefício do filho. “Nós não queremos nada para nós. Só queremos dar uma qualidade de vida melhor ao Kemuel”, afirma.
Em Marinhais, onde vive há dois anos a família - da qual também faz parte uma bebé de dois anos que nasceu saudável - a resposta tem sido marcada pela solidariedade. O Agrupamento de Escolas de Marinhais, vizinhos, associações, o clube desportivo local e a rádio local ajudaram a divulgar o caso. Está também a ser preparada uma caminhada solidária. Para os pais, cada partilha conta, porque aproxima Kemuel do sonho que ele próprio formula com inocência: “Mãe, quando for adulto, vou andar?”, pergunta constantemente. “No dia em que vir o meu filho independente, vou feliz”, diz o pai que pede a quem puder contribuir que contribua e, a quem não puder, que partilhe.


