Sociedade | 20-06-2026 07:00

Santarém no centro do alerta nacional: pobreza sobe para 27,6% quando a habitação entra nas contas

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foto ilustrativa

Estudo da Rede Europeia Anti-Pobreza, apresentado no Instituto Politécnico de Santarém, revela que quase três milhões de pessoas em Portugal ficam em risco de pobreza quando aos rendimentos são descontados os custos com a habitação.

Santarém foi o palco escolhido pela Rede Europeia Anti-Pobreza para lançar um alerta que atravessa o país: a taxa de risco de pobreza em Portugal sobe de 16,6% para 27,6% quando são considerados os custos com a habitação. O estudo, divulgado esta quinta-feira, 28 de Maio, no Instituto Politécnico de Santarém, defende que o peso das rendas, prestações e encargos associados à casa está a empurrar mais famílias para situações de vulnerabilidade. De acordo com o documento, que compila dados oficiais relativos a 2024, cerca de 1,76 milhões de pessoas encontravam-se em risco de pobreza, o equivalente a 16,6% da população residente. Mas a Rede Europeia Anti-Pobreza estima que, se forem contabilizados os custos da habitação, esse universo passa para quase três milhões de pessoas, mais cerca de um milhão do que o cálculo oficial.
Paula Cruz, do Departamento de Investigação e Projectos da EAPN Portugal/Rede Europeia Anti-Pobreza, defendeu à Lusa que os encargos com a casa devem ser incluídos na avaliação da pobreza, por permitirem um retrato “mais fiel” da realidade social. “Actualmente, a taxa de risco de pobreza não contabiliza os gastos com a habitação”, afirmou, sublinhando que esse factor reduz de forma significativa o rendimento disponível das famílias. “Se retirarmos esse valor, percebemos que as pessoas ficam com menos rendimento disponível e mais vulneráveis”, acrescentou.
O estudo apresentado em Santarém conclui que a distância entre a taxa oficial de pobreza e a taxa calculada depois dos custos habitacionais tem vindo a aumentar de forma expressiva, atingindo 66% em 2024. Para a organização, este dado mostra o impacto crescente da habitação no empobrecimento das famílias portuguesas. A investigação alerta ainda que o modelo actual de medição, centrado sobretudo no rendimento mediano, “não abrange outras dimensões” essenciais ao bem-estar, como as condições habitacionais. Essa limitação pode deixar de fora situações de pobreza real, em que o rendimento existe, mas é absorvido por despesas fixas incomportáveis. O documento aponta também a pressão crescente sobre o mercado imobiliário, referindo que os preços da habitação aumentaram 17,6% em 2025, atingindo máximos históricos e afastando-se dos rendimentos das famílias. A sobrelotação, a especulação imobiliária e a sobrecarga financeira são identificadas como factores que tornam o acesso à habitação “cada vez mais restrito”.
Entre os problemas estruturais apontados estão a reduzida percentagem de habitação pública em Portugal, cerca de 2%, e a deficiência energética de grande parte do parque habitacional, factores que agravam as desigualdades e penalizam sobretudo os agregados mais frágeis. As conclusões apresentadas em Santarém encerram um ciclo de três encontros promovidos pela EAPN Portugal, destinados a recolher contributos para recomendações a entregar aos decisores políticos, no âmbito das comemorações dos 35 anos da organização.

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