Voluntários já retiraram 12 toneladas de lixo das margens do Tejo
Movimento DESPLASTIFICA-TEjo assinalou oito anos de actividade com uma acção de limpeza na zona ribeirinha da Póvoa de Santa Iria. Em 45 iniciativas os voluntários já recolheram à volta de 12 toneladas de lixo. O grupo alerta para os perigos dos plásticos e nanoplásticos para o ambiente e para a saúde humana.
O movimento informal de cidadãos DESPLASTIFICA-TEjo realizou 45 acções e recolheu cerca de 12 toneladas de lixo em oito anos de actividade no concelho de Vila Franca de Xira. A data foi assinalada no dia 27 de Maio, mas culminou com uma acção de recolha de lixo na zona ribeirinha da Póvoa de Santa Iria, no dia 7 de Junho, assinalando também o Dia Mundial do Ambiente e o Dia Mundial dos Oceanos. Participaram 28 voluntários, alguns do grupo Ribatejo Tentajudar, incluindo cinco crianças. No final foram recolhidas 20 sacas de lixo, umas com capacidade para 100 litros e outras para 200 litros, bem como cordas, redes de pesca, esferovite, embalagens de plástico e garrafas.
Luís Pereira, um dos fundadores do DESPLASTIFICA-TEjo, explica a O MIRANTE que no cais da Póvoa e na zona envolvente acumula-se muito lixo junto à margem do rio Tejo. Uma parte chega de outras zonas com a maré, mas muitas garrafas e plásticos são atirados pelas pessoas.
A esferovite, explica, desfaz-se em pedaços muito pequenos que os peixes confundem com alimento, acabando por os ingerir e morrer. Outros fragmentos entram no organismo dos seres vivos sob a forma de nanoplásticos, passando para a corrente sanguínea e afectando toda a cadeia alimentar. “E nós depois comemos. Há vários estudos que demonstram que já há nanoplásticos no leite materno, no nosso cérebro e em vários órgãos do nosso corpo. Ainda não se sabe bem que efeitos isto pode ter na saúde, mas há estudos que apontam para a perda de fertilidade”, sublinhou.
Mais incentivos fiscais a quem entrega lixo
Ao longo de oito anos, o grupo tem recebido sugestões de cidadãos para realizar acções em zonas verdes que acumulam muito lixo. Contudo, Luís Pereira explica que, mais cedo ou mais tarde, as juntas de freguesia e as câmaras municipais acabam por limpar esses espaços, o que não acontece com tanta frequência nas zonas ribeirinhas do concelho de Vila Franca de Xira e junto das linhas de água.
Sem querer apontar o dedo aos poluidores, até porque são muitos, o porta-voz do movimento considera importante sensibilizar os pescadores através das associações que os representam, até porque o peixe é fruto do seu trabalho. Outra área de que pouco se fala são os parques logísticos junto ao Tejo. “Com o vento, vêem-se carradas de plástico e outras embalagens que vão parar às margens do rio. Era importante fazer campanhas junto dessas empresas para terem cuidado com o lixo que fica à solta”, defende.
Luís Pereira considera ainda que em Portugal, e em alguns países da Europa, subsiste a ideia de que, se há lixo na rua, alguém o tem de apanhar e que, se não foi a própria pessoa a produzi-lo, então não é da sua responsabilidade. Ainda assim, defende incentivos fiscais às empresas que encaminham correctamente os seus resíduos e também aos cidadãos, considerando que há ainda muito por fazer nesta área. “Temos de dar valor ao lixo e não ter esta política inversa de a pessoa ter de pagar para entregar o lixo. Senão dificilmente vamos conseguir combater os depósitos ilegais”.
Motorroçadoras espalham plástico
Um dos problemas que continua a verificar-se resulta do corte de ervas nas várias freguesias do concelho. Utilizam-se motorroçadoras sem se recolher previamente o lixo, acabando as máquinas por triturar os plásticos, que depois se espalham pelo ambiente. “Já tivemos uma reunião com o Departamento de Ambiente da câmara e disseram que isso não é suposto acontecer, mas no terreno encontramos muitas vezes garrafas de plástico completamente desfeitas pelas motorroçadoras e outras embalagens. A vegetação volta a crescer e o lixo continua lá, no solo”, alerta.
O balanço dos oito anos do DESPLASTIFICA-TEjo é positivo, diz Luís Pereira. Mudaram-se algumas mentalidades e a própria Câmara de Vila Franca de Xira realizou acções semelhantes e apostou na sensibilização. O grupo já foi distinguido com o prémio Heróis da Reciclagem, promovido pela Câmara de Lisboa em parceria com a Sociedade Ponto Verde.
Surpresas à beira-Tejo
Na zona ribeirinha do concelho de Vila Franca de Xira encontra-se todo o tipo de lixo, mas um dos casos mais insólitos foi um carrinho de compras de supermercado deixado no meio do trilho entre a Póvoa de Santa Iria e o Forte da Casa, ou uma trotinete eléctrica atirada para o Tejo. É comum dar de caras com peças de automóveis, móveis velhos e, recentemente, apareceu uma arca de madeira antiga. Depois dos eventos também é comum verem-se copos espalhados pelo chão.


