O arquivo que guarda a memória viva e colectiva do Entroncamento
No Dia Internacional dos Arquivos, O MIRANTE visitou o Arquivo Municipal do Entroncamento, onde quase dois quilómetros de estantes preservam documentos que ajudam a contar a história de um concelho nascido à boleia do caminho-de-ferro e construído pela força da sua gente.
Escondido entre estantes carregadas de processos, livros, fotografias e documentos administrativos, o Arquivo Municipal do Entroncamento guarda memórias do primeiro telefone na cidade, como se foi construindo o concelho rua a rua, obra a obra, e até quanto ganhava o presidente da câmara em 1946: 500 escudos. No Dia Internacional dos Arquivos, assinalado a 9 de Junho, o espaço abriu portas à comunidade e O MIRANTE acompanhou uma visita guiada por Daniela Carmona, responsável pelo arquivo desde 2007, precisamente o ano em que foi instituída a data comemorativa. Entre quase dois quilómetros de estantes, a arquivista fala da história local com a paixão de quem sabe que cada folha pode conter uma pista sobre a identidade de uma terra. Conhece cada canto do arquivo, cada conjunto documental, cada gaveta onde repousam fragmentos da vida colectiva do Entroncamento. Mas nem sempre foi assim. Antes da transferência para as actuais instalações, a documentação municipal estava longe das condições ideais. “Estava tudo ao monte no sótão da câmara. Quem quisesse um documento tinha de ir lá e procurar entre pastas já com pó e até degradadas”, recorda.
Em 2007, o espólio foi transferido para um armazém junto ao mercado municipal, onde passou a ser limpo, tratado e organizado. A mudança representou um avanço importante, mas Daniela Carmona considera que o arquivo continua a merecer melhores condições e uma casa pensada para a sua missão. “A história merece um sítio próprio”, resume, sem dramatismo, mas com a convicção de quem passa os dias a proteger a memória de uma comunidade. No espaço trabalham a arquivista e a assistente técnica Ana Ramos, que têm vindo a assegurar a organização, conservação e digitalização do espólio. Quase metade da documentação já foi digitalizada, num processo lento e exigente, mas essencial para reduzir o manuseamento dos originais e protegê-los do desgaste, dos insectos e das variações de temperatura.
A importância de preservar
Entre os milhares de documentos guardados no Arquivo Municipal do Entroncamento, o mais antigo é também um dos mais simbólicos: o Diário do Governo que oficializou a criação do concelho, a 24 de Novembro de 1945. É uma peça central para compreender o nascimento administrativo de uma terra que cresceu a uma velocidade rara, impulsionada pela ferrovia e pela chegada de sucessivas gerações de trabalhadores e famílias. Mas há outros documentos que despertam especial interesse em Daniela Carmona. Um dos seus favoritos é o processo relativo à pavimentação de ruas e arruamentos entre 1932 e 1945. “Isto é a construção do Entroncamento”, afirma, sublinhando que aqueles documentos ajudam a perceber como uma localidade então pequena se transformou, em poucos anos, num centro urbano de referência na região. Nem sempre, porém, os documentos mais importantes são os mais antigos, os mais bonitos ou os mais solenes. Daniela Carmona dá o exemplo dos contratos de água, documentos aparentemente banais, mas cuja conservação é permanente. Para muitos, seriam apenas registos administrativos. Para uma arquivista, são uma janela aberta sobre a vida quotidiana.
Consciente de que os arquivos continuam a ser espaços pouco conhecidos e, muitas vezes, associados apenas a burocracia, Daniela Carmona defende a necessidade de aproximar a população, sobretudo os mais jovens, da história local. Uma das iniciativas mais recentes passa por levar exposições do arquivo às escolas do concelho, permitindo que os alunos contactem com fotografias antigas e descubram lugares, rostos e modos de vida que ajudam a explicar a cidade onde vivem. Outra aposta tem sido o projecto “Documento do Mês”, através do qual o município divulga regularmente fotografias e documentos marcantes da história. Mas a responsável pelo arquivo sonha com projectos ainda mais ambiciosos. Um deles passa pela recolha de testemunhos orais de antigos ferroviários e de habitantes que acompanharam as grandes transformações da cidade.


