Projecto europeu defende reforço da monitorização do rio Sorraia
A poluição por plásticos e a preparação do território para cheias mais intensas são medidas que especialistas defendem para a bacia do rio Sorraia.
O projecto europeu TRAP defendeu a urgência de reforçar a monitorização do rio Sorraia, reduzir a poluição por plásticos e preparar o território para cheias mais intensas, num contexto de agravamento dos fenómenos climáticos extremos. A posição foi assumida durante as 1ª Jornadas TRAP — “Reimaginar o Rio: as Cheias do Sorraia e os Caminhos do Plástico”, que decorreram em Coruche, no dia 18 de Junho, e reuniram investigadores, técnicos e entidades públicas.
Em debate estiveram os principais riscos associados a um “cenário climático paradoxal” de redução da precipitação anual, mas “maior probabilidade de chuvas intensas em curtos períodos". Citado em comunicado, Jorge Ponte, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, revela que as projecções apontam para uma diminuição de 30% a 40% na precipitação até ao final do século. “No entanto, o aquecimento do ar, que já se situa entre 1 e 2ºC acima da média histórica, aumenta a capacidade de retenção de vapor de água na atmosfera, o que favorece episódios de chuva mais intensa e agrava o risco de ocorrência e a dimensão das cheias”, acrescentou.
A monitorização do rio Sorraia foi identificada como uma das principais lacunas. Pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Manuela Saramago destacou que o Sorraia “nunca deixou de ser monitorizado”, mas não de forma contínua no tempo nem abrangente no espaço, sublinhando a necessidade de colmatar esse défice para garantir medições mais rigorosas. Para tal, apelou à colaboração da autarquia, da Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Tejo e Oeste e da população, "quer na identificação de um local para a instalação de uma nova estação hidrométrica", "quer na prevenção da vandalização destes equipamentos".
No mesmo sentido, investigadores do projeto TRAP têm defendido a recolha de dados que permitam desenvolver um “gémeo digital” do rio Sorraia, uma ferramenta que poderá prever o comportamento do curso de água. Também citado no comunicado, José Núncio, da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia, afirmou que cerca de dois terços da bacia hidrográfica não estão monitorizados, defendendo a criação de uma rede de dados de acesso público que apoie a tomada de decisão.
Já Carlos Castro, da ARH do Tejo e Oeste, sublinhou a importância do planeamento do território, defendendo a necessidade de garantir espaço para o rio, evitar construções em leito de cheia e promover áreas permeáveis e zonas verdes que facilitem o escoamento das águas. A preservação das galerias ripícolas foi igualmente apontada "como uma medida essencial para mitigar os impactos das cheias", consideradas inevitáveis na região.
A relação histórica entre a população e o rio foi também evocada por Aníbal Mendes, do Museu Municipal de Coruche, que apresentou imagens ilustrando a evolução da ocupação humana junto ao Sorraia e os desafios cíclicos associados às cheias. No âmbito da proteção civil, o coordenador municipal, Luís Fonseca, recomendou a preparação de kits de emergência para 72 horas por parte dos cidadãos, como forma de aumentar a resiliência face a fenómenos extremos.
O encontro abordou ainda as cheias e a forma como estes episódios revelam a presença de resíduos plásticos nos cursos de água. Segundo o comunicado, décadas de actividade no Sorraia permitiram identificar "uma grande diversidade de resíduos", desde garrafas e embalagens domésticas a materiais agrícolas e redes de pesca ilegais.
No encontro, o presidente da Câmara de Coruche, Nuno Azevedo, defendeu a cooperação entre entidades públicas, investigadores, sociedade civil e população, considerando que “cuidar do Sorraia é cuidar do futuro de Coruche. O projecto TRAP, financiado pelo programa Interreg Atlantic Area, envolve nove parceiros de Portugal, Espanha, França e Irlanda, e visa combater a poluição plástica nos rios através de soluções baseadas na natureza, ferramentas digitais e envolvimento das comunidades. Em Portugal, o Sorraia, no concelho de Coruche, é o local-piloto.


