Sociedade | 23-06-2026

“Uma área de eucaliptos não é uma floresta é uma exploração industrial”

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“Uma área de eucaliptos não é uma floresta é uma exploração industrial”

Antonio J.M. Montez

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Antonio J.M. Montez

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Antonio J.M. Montez

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Antonio J.M. Montez

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Antonio J.M. Montez

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Antonio J.M. Montez

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“Uma área de eucaliptos não é uma floresta é uma exploração industrial”

Antonio J.M. Montez

Vilarinho de São Roque e Frossos são duas aldeias do concelho de Albergaria-a-Velha. São gotas da mesma água, mas dificilmente poderiam ser mais diferentes.

Vilarinho nasceu e cresceu nas encostas escarpadas da Serra do Arestal, ladeada pelo rio Fílveda. Já Frossos estende-se entre campos agrícolas e manchas de eucaliptal nas margens do rio Vouga. Separadas por cerca de 20 quilómetros, que merecem ser percorridas sem pressa, apreciando a beleza da paisagem envolvente.

Foi isso que fizemos. No entanto, a paisagem já não era a mesma.

Os incêndios de 2024 destruíram grande parte da mancha florestal do concelho. “Nunca tínhamos visto nada assim”, confessou-nos o senhor Raul, enquanto limpava uma pequena parcela de terreno onde crescem medronheiros. À sua volta, quase tudo permanecia queimado. Nada tinha sido limpo, embora os eucaliptos já começassem a rebentar de novo.

A pergunta impunha-se: porque continua a serra tão abandonada? Porque não avançam as limpezas da madeira ardida e as reflorestações?

“As pessoas perderam tudo. Já não têm dinheiro nem força para replantar. As coisas estão difíceis. Mesmo com os apoios do Estado para a limpeza, não chega”, explicou.

Apontando para o terreno onde trabalhava, acrescentou: “Estou a limpar isto porque o proprietário, que vive na Suíça, perdeu tudo no incêndio e decidiu plantar medronheiros. Já não quer saber da madeira.”

Mais abaixo, junto ao rio, existia um passadiço que também foi consumido pelas chamas. “Ardeu tudo. Agora a junta não tem dinheiro para limpar o trilho e muito menos para reconstruir as escadas dos passadiços”, lamentou.

Prosseguimos viagem. Quilómetro após quilómetro, sucediam-se as imagens de serra queimada e abandonada.

Ao atravessar Albergaria-a-Velha, a paisagem transformou-se. A montanha deu lugar à planície, aos campos de milho e aos espaços mais abertos. Ainda assim, o abandono continuava visível. Eucaliptos queimados junto às estradas exibiam já rebentos verdes, enquanto mato e vegetação invadiam terrenos e bermas.

Não encontrámos as faixas de limpeza obrigatórias junto às vias e, em muitos locais, não se via qualquer sinal de intervenção. Tudo isto, inclusivamente, numa rua onde se situa um armazém da Câmara Municipal.

Seguimos depois até Frossos para visitar a BioLiving, uma organização não-governamental que tem como lema “Natureza e Educação para Todos”.

“Quando o incêndio de 2024 chegou a Frossos, acabou por parar numa das micro-reservas de biodiversidade que gerimos”, explicou-nos Milene, uma das técnicas da associação.

A razão, disse, não se deveu apenas à presença de espécies autóctones, mas sobretudo ao facto de a área estar limpa e bem gerida.

“Vários proprietários têm vindo ter connosco para doar terrenos ou pedir apoio na reconversão de áreas de eucalipto para outras espécies mais resilientes ao fogo”, afirmou.

Para a técnica, o grande problema está na continuidade da monocultura. “O manto contínuo de eucalipto não ajuda nem no combate aos incêndios nem na preservação dos ecossistemas. Temos de começar a pensar na floresta que queremos deixar aos nossos filhos.”

Segundo a responsável, existe ainda um grande desconhecimento sobre o tema, tanto entre a população em geral como entre muitos proprietários florestais.

“Recentemente mostrámos fotografias de um eucalipto, de um pinheiro e de um sobreiro a um grupo de estudantes e perguntámos qual era a árvore nativa de Portugal. Todos responderam que era o eucalipto”, contou.

“Não podemos considerar uma área de eucaliptos, gerida de modo industrial , como uma floresta, temos de considerá-la como uma exploração industrial de eucalipto, não como um ecosistema sustentável e biodiverso”, referiu.

O dia chegou ao fim. Regressámos pelo caminho da desolação. No dia seguinte, Vouzela e Sever do Vouga esperavam-nos para continuar a viagem por um território que ainda tenta recuperar das marcas deixadas pelo fogo.

António Montez


O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.

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