Reformados da Parreira mostram que a terra ainda ajuda a pôr comida na mesa
Entre o aumento do custo de vida, a ocupação dos dias e o gosto antigo pelo campo, há reformados que continuam a cultivar para consumo próprio e a preservar saberes que aprenderam com os pais e avós. Na Parreira, a horta é poupança, saúde, memória e resistência ao abandono do mundo rural.
Numa altura em que o preço dos alimentos pesa cada vez mais no orçamento das famílias, há quem continue a encontrar na terra uma resposta simples, antiga e eficaz. Na Parreira, concelho da Chamusca, vários reformados mantêm as suas hortas tratadas, não por obrigação profissional, mas porque a vida no campo nunca deixou de fazer parte deles. Entre tomates, cebolas, favas, feijão-verde e outros produtos da época, garantem alimentos frescos para a mesa, ocupam o tempo e mantêm viva uma tradição que muitos temem que se perca com o afastamento das novas gerações da agricultura. O MIRANTE passou um dia com parreirenses que, afirmam com orgulho, sentem a sua terra como ninguém.
Maria da Conceição, 71 anos, trabalhou toda a vida no campo e continua a olhar para a horta como “uma companheira”. A reforma não lhe tirou o hábito de mexer na terra nem a vontade de trabalhar com aquilo que a natureza permite colher. “No Verão trabalhamos e arranjamos comer para o Inverno”, resume, com simplicidade. Para a reformada, a horta é trabalho, mas também é ocupação, rotina e forma de continuar útil.
A mesma ligação à terra sente Rui Pinheiro Maia, antigo trabalhador de uma fábrica de farinhas. Depois da reforma, encontrou na agricultura uma maneira de passar os dias e, ao mesmo tempo, enfrentar o aumento dos preços. “Tenho tomate, tenho favas, tenho isto para comer”, afirma, apontando para os produtos que vão crescendo na horta e que acabam por completar as refeições da família. “Não é uma exploração agrícola, nem pretende sê-lo. É uma horta de subsistência, feita com gosto, com esforço e com a consciência de que cada quilo que dali sai é menos uma despesa no mercado”, vinca.
Um chefe de polícia agricultor
Mas há também quem veja na horta uma escola de vida. António Venceslau, antigo chefe da polícia, dedica-se à agricultura nos tempos livres e sabe bem a diferença entre o campo e a cidade. Para o agricultor, cultivar não é apenas uma forma de passar o tempo. “É um hobby, mas também tem a ver com sabermos aquilo que consumimos”, defende. Saber de onde vem o que se põe no prato é, para António Venceslau, uma segurança que não tem preço. Criado desde pequeno no contacto com a agricultura, António Venceslau recebeu dos pais o gosto pelo campo e a noção de que a terra exige disciplina. A experiência profissional, acrescenta, também lhe deixou ensinamentos que continuam a servir-lhe na horta: “Querer fazer as coisas com exigência, com regra, com tempo e horas, não deixar muitas vezes para amanhã o que se deve fazer hoje.” No campo, como na vida, há tarefas que não esperam. Regar, sachar, plantar e colher têm o seu tempo próprio e quem falha esse tempo perde parte do trabalho, explica ao nosso jornal.
A conversa acaba por ir além das hortas e tocar num problema maior: a desertificação das zonas rurais e o afastamento dos jovens da agricultura. António Venceslau viveu mais de três décadas numa grande cidade, mas não tem dúvidas sobre a escolha que faria. “Quem conhece os dois meios, como eu, que passei 35 ou 36 anos numa cidade grande, não troca a vida no campo”, afirma. Para o antigo chefe da polícia, a vida rural oferece uma qualidade que os centros urbanos dificilmente conseguem dar. “No campo temos tempo para tudo. Não temos necessidade de andar a correr e viver constantemente em stress”, refere. O problema, reconhece, é que esse modo de vida está a perder gente. As hortas que hoje ainda resistem nas mãos dos reformados podem não ter continuidade se os mais novos não olharem para o campo com outros olhos. “Os jovens deveriam olhar um bocadinho para isso e tentar que o campo, a vida rural, não morresse como está a morrer. Não se pode esquecer que é no campo que está o princípio de tudo. É no campo que se faz mexer a economia”, conclui.


