Sociedade | 28-06-2026 15:00

Associação da Portela das Padeiras mantém viva a dádiva de sangue há 32 anos

Associação da Portela das Padeiras mantém viva a dádiva de sangue há 32 anos
Anabela Lima lidera há anos o Grupo de Dadores de Sangue da Portela das Padeiras - foto O MIRANTE

No concelho de Santarém, o Grupo de Dadores Benévolos de Sangue da Portela das Padeiras é uma das associações que continua a mobilizar centenas de dadores todos os anos. Um gesto solidário de poucos minutos, que ajuda a salvar vidas.

Num domingo de manhã ou numa segunda-feira à tarde, há quem troque algumas dezenas de minutos do seu tempo por um gesto que pode salvar até três vidas. É isso que acontece há 32 anos na Portela das Padeiras, em Santarém, onde o Grupo de Dadores Benévolos de Sangue continua a mobilizar centenas de pessoas para a dádiva de sangue. No âmbito do Dia Mundial do Dador de Sangue, assinalado a 14 de Junho, O MIRANTE foi conhecer o trabalho do grupo, que realiza seis recolhas por ano, nos meses de Janeiro, Maio e Setembro, tendo na última participado mais de uma centena de dadores. Um número que resulta do trabalho de divulgação desenvolvido pelos voluntários e da fidelização de muitos dadores que regressam regularmente.
À frente da associação está Anabela Lima, presidente desde 2016, que assumiu a liderança após o irmão, então presidente, sofrer um AVC. “Pensei muito no que havia de fazer, porque não percebia nada de como liderar uma associação. Mas é um trabalho e uma associação que merece e deve continuar, então fiquei”, recorda, adiantando que, ao longo dos anos, a associação tem conseguido atrair novos dadores, embora também enfrente desafios na substituição dos voluntários mais antigos, que deixam de poder doar por motivos de saúde ou idade.

Um gesto que pode salvar vidas
Entre os dadores regulares está Esmeralda Gonçalves, de 32 anos, que doou sangue pela primeira vez em Setembro de 2020, depois de perceber que podia contribuir para ajudar quem precisa. “Custa-me levar injecções e tirar sangue para análises, mas comecei a pensar que há pessoas que precisam. E se consigo enfrentar agulhas por causa de uma tatuagem, também posso doar sangue”, conta em declarações a O MIRANTE. Desde então já efectuou dez dádivas, admitindo entre risos que a primeira experiência trouxe algum nervosismo quando viu o tamanho “grosso” da agulha.
Mas rapidamente percebeu que o receio era maior do que a realidade. “Estava mais nervosa do que aquilo que foi. Não doeu e foi tudo tranquilo. Não custa nada”, garante, dizendo que a motivação de continuar é saber que pode ajudar a salvar uma vida. “Hoje estamos a fazer pelos outros, mas amanhã podemos ser nós a ir parar ao hospital e necessitar de sangue doado por outras pessoas, então acho que é um gesto que toda a gente devia tentar fazer”, sublinha, acrescentando que já conseguiu convencer mais pessoas a doar.
A dádiva de sangue dá também acesso a alguns benefícios. Segundo Anabela Lima, dadores com duas colheitas num período de 365 dias ficam isentos de taxas moderadoras e, após 30 dádivas, essa isenção torna-se permanente. A dirigente diz ainda que já houve o direito a um dia de dispensa, uma medida que gostaria de ver recuperada. Alerta ainda que, apesar do elevado número de associações de dadores no concelho de Santarém, as reservas de sangue do Hospital Distrital têm frequentemente níveis reduzidos.
A presidente admite que a situação é motivo de preocupação constante, sendo o problema mais evidente durante o Verão, quando aumentam os acidentes e diminuem as dádivas devido ao período de férias. Também o Inverno costuma ser complicado, devido ao aumento das doenças sazonais. “Todos os dias são precisas entre mil e mil e cem colheitas para os hospitais funcionarem correctamente. Se não houver essas colheitas, alguém pode não ter uma cirurgia ou um tratamento”, alerta, informando que quem quiser doar só tem de comparecer num dia de colheita, preencher a inscrição e passar pela consulta de triagem. Se estiver apto, segue-se a dádiva, que demora entre 15 a 20 minutos.

O trabalho por detrás de cada dádiva
Cláudia Lima, de 34 anos, faz parte da direção do grupo, mas não pode doar sangue por não reunir os requisitos físicos necessários. Ainda assim, encontrou outra forma de contribuir para a causa, destacando que mesmo antes de ser dirigente já ajudava na preparação das recolhas, que começam dias antes. “Sempre tive familiares ligados ao grupo e a noção da importância que é doar. Então, já que não posso dar sangue, posso ajudar de outras formas”, salienta. Como dirigente, ajuda na preparação do espaço para as equipas médicas, a distribuir cartazes pela cidade e a garantir que tudo está pronto para receber os dadores. “É um trabalho que vale sempre a pena, especialmente quando há boa adesão de dadores. É sinal de que estamos a fazer um bom trabalho”, afirma.
A renovação geracional é uma das principais preocupações do grupo, pois embora o número de jovens dadores esteja a aumentar, a maioria continua a ir por influência de familiares ou amigos ligados à causa. “Ainda é raro um jovem aparecer sozinho para dar sangue”, lamenta Anabela Lima. Para contrariar essa realidade, a associação tem apostado também em acções de sensibilização nas escolas. Uma das iniciativas mais bem-sucedidas contou com a participação do “Gotas”, mascote da Federação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue. “O objectivo é que percebam desde cedo a importância da dádiva de sangue e que levem essa mensagem para casa”, explica.

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