Doentes continuam internados nos hospitais apesar de já terem alta clínica
Falta de vagas em lares, de cuidados continuados e de suporte familiar mantêm dezenas de utentes internados sem necessidade clínica em hospitais da região, ocupando camas e aumentando a pressão sobre os serviços.
O Hospital Vila Franca de Xira tem 48 utentes internados em situação de protelamento de alta clínica e 69 utentes em camas de retaguarda. Os dados foram avançados a O MIRANTE pela Unidade Local de Saúde (ULS) Estuário do Tejo, entidade que gere o hospital. Deixando a ressalva de que nem todos os internamentos inapropriados (como as situações de protelamento de alta) resultam de casos sociais, o hospital refere que no último ano referenciou 95 utentes à Segurança Social e 535 à Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados devido a situações de protelamento de alta. “A ULS Estuário do Tejo tem acordos com outras entidades para o internamento destes casos, com capacidade até 83 camas, sendo que cada cama de retaguarda tem um custo médio de 85 euros por dia”, explica.
O Hospital Vila Franca de Xira já tinha estimado anteriormente gastar anualmente seis milhões de euros com os internamentos sociais, na sua maioria de idosos, que depois de serem atendidos na unidade não têm suporte familiar nem instituições na comunidade que os possam acolher. É um problema que tem obrigado a unidade de saúde a contratar serviços extraordinários no exterior para acolher os doentes por falta de oferta na rede nacional de cuidados continuados. A situação, que retira verbas que eram importantes para outros investimentos na unidade de saúde, já é do conhecimento da nova administração da unidade, liderada por Nuno Cardoso. Já anteriormente O MIRANTE dera nota da existência de uma elevada percentagem de pessoas internadas sem necessidade no hospital.
Idosos sem apoio
A Unidade Local de Saúde do Médio Tejo tem actualmente 22 utentes internados nos hospitais que tutela (Abrantes, Tomar e Torres Novas) apesar de já terem recebido alta clínica. São pessoas que já não precisam de cuidados hospitalares diferenciados, mas que continuam a ocupar camas por falta de resposta social, familiar, legal ou de continuidade de cuidados. Segundo dados fornecidos a O MIRANTE, estas situações de protelamento de alta continuam a ser um dos problemas que mais pressão coloca sobre a gestão hospitalar. Entre os casos identificados, há utentes à espera de vaga em Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, outros a aguardar colocação na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, situações dependentes de diligências familiares para entrada em lar privado e pelo menos um processo que aguarda decisão do Ministério Público no âmbito de maior acompanhado.
O fenómeno dos chamados internamentos sociais tem marcado a actividade hospitalar no Médio Tejo nos últimos anos. Em 2024 foram registadas 88 situações de protelamento de alta, que corresponderam a 4.094 dias de internamento considerado inadequado. Em 2025, o número subiu para 132 situações, totalizando 4.240 dias. Já este ano, até à data, estão contabilizados 91 casos e 1.799 dias de permanência hospitalar após alta clínica.
Apesar da dimensão do problema, a ULS Médio Tejo assinala uma evolução positiva no tempo médio de permanência destes utentes depois da alta médica. Em 2024, cada doente ficava em média 46,5 dias internado sem necessidade clínica. Em 2025, esse valor desceu para 32,1 dias e, em 2026, situa-se nos 19,7 dias, o que representa uma redução de cerca de 60% em dois anos. A idade média destes utentes foi de 77,4 anos em 2024, 77 anos em 2025 e 78,5 anos em 2026.
Hospital de Santarém regista média anual de 229 casos
No final de Maio, o Hospital Distrital de Santarém (HDS) tinha 22 camas ocupadas por doentes que já tinham recebido alta clínica, mas que continuavam internados por falta de resposta social ou de colocação em estruturas adequadas. Das 22 camas ocupadas, oito correspondiam a doentes com processo de referenciação para a Rede Nacional de Cuidados Continuados (RNCC) em curso, enquanto as restantes 14 estavam associadas a situações de carácter social.
Segundo a Unidade Local de Saúde (ULS) Lezíria, que tutela o HDS, nos últimos três anos registou-se uma média anual de 229 situações de protelamento de alta clínica. Destas, cerca de 140 estiveram relacionadas com processos de encaminhamento para a RNCC e 89 tiveram origem em problemas de natureza social. Em 2025, o tempo médio de permanência destes utentes após a alta médica foi de 45 dias, mas a ULS refere que cerca de metade dos casos teve uma duração inferior a uma semana, coexistindo situações de “elevada complexidade social com permanências significativamente prolongadas”.
A realidade varia também consoante o perfil dos utentes. Os doentes que aguardam colocação na Rede Nacional de Cuidados Continuados têm maioritariamente entre 60 e 70 anos, enquanto os internados por motivos sociais pertencem sobretudo à faixa etária entre os 80 e os 90 anos. Entre os principais factores que impedem a saída do hospital estão a falta de vagas em estruturas residenciais, a “necessidade de reorganização” familiar e habitacional, a ausência ou limitação de apoio domiciliário e a demora de respostas sociais e institucionais adequadas.
Sistema social com dificuldades e rede familiar cada vez mais frágil
Entre os principais factores que impedem a saída hospitalar estão a falta de vagas em lares e na rede de cuidados continuados, a ausência ou insuficiência de suporte familiar, a exaustão dos cuidadores, dificuldades económicas e processos legais pendentes. A ULS refere que a demora na tramitação de processos de maior acompanhado pode atrasar soluções, mesmo quando existe capacidade financeira para integração em respostas privadas.
A articulação entre hospitais, Segurança Social, Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e autarquias é feita através dos mecanismos definidos para a gestão de altas. Mas, na prática, a saída destes doentes depende muitas vezes de respostas externas ao hospital que não existem ou não chegam em tempo útil. O impacto sente-se directamente na gestão das camas e no funcionamento dos serviços. Cada cama ocupada por um utente com alta clínica é uma cama que fica indisponível para novos doentes, aumentando a pressão sobre os internamentos e sobre as urgências. Ao mesmo tempo, representa a utilização de recursos hospitalares diferenciados em situações que deveriam ser acompanhadas noutros contextos.
A permanência prolongada em ambiente hospitalar também traz riscos para os próprios utentes, nomeadamente perda de autonomia, declínio funcional e maior exposição a infecções associadas aos cuidados de saúde. A ULS Médio Tejo sublinha que estas situações são acompanhadas pelas equipas clínicas, sociais e de gestão de altas, mas a sua resolução depende frequentemente da capacidade instalada na comunidade e das respostas sociais e de cuidados continuados existentes na região.


