Sociedade | 29-06-2026 13:46

Morreu Maria Elisa Figueiredo: a mulher que abriu caminho quando mandavam as mulheres ficar em casa

Morreu Maria Elisa Figueiredo: a mulher que abriu caminho quando mandavam as mulheres ficar em casa

Maria Elisa Figueiredo Duarte morreu na madrugada de 29 de Junho, aos 94 anos, deixando em Santarém uma memória feita de trabalho, coragem, voluntariado e independência.

Morreu na madrugada de 29 de Junho Maria Elisa Figueiredo Duarte, mulher de fibra, de fé e de uma liberdade que nunca precisou de levantar a voz para se afirmar. Tinha 94 anos e uma vida que atravessou quase um século de mudanças, preconceitos, perdas e conquistas. Em Santarém, onde viveu grande parte da sua vida, deixa a marca de quem serviu, trabalhou e resistiu a um tempo em que às mulheres se pedia sobretudo recato, obediência e silêncio.
Nascida a 9 de Fevereiro de 1932, na Quinta da Marquesa, em Vila Franca de Xira, Maria Elisa chegou a Santarém ainda jovem, depois de uma infância marcada pela morte precoce do pai e pela coragem da mãe, professora, que a criou e lhe abriu horizontes num país onde o destino feminino parecia quase sempre traçado à nascença. Aos 17 anos entrou nos serviços da Intendência Geral dos Abastecimentos, em Santarém, em 1949, passando a trabalhar entre homens, num ambiente em que a simples presença de uma rapariga numa repartição pública era motivo de espanto. A própria recordou, em entrevista a O MIRANTE, que a mãe a esperava todos os dias à saída do trabalho, receosa do peso que a cidade conservadora colocava sobre uma jovem mulher que ousava trabalhar fora de casa.
Durante 36 anos foi funcionária pública. Nunca sentiu que o trabalho lhe roubasse a condição de mulher, mãe ou esposa; pelo contrário, dizia que trabalhar ajudava a “estar a par da vida”. Casou com Bernardo Figueiredo, jornalista que foi director do Correio do Ribatejo e teve uma longa carreira na imprensa regional e nacional. Com ele teve três filhos. A doença também lhe bateu à porta. Aos 44 anos enfrentou um cancro do colo do útero, numa altura em que o diagnóstico era recebido quase como sentença. Da dor nasceu a poesia, que transformou em gesto de solidariedade. Foi também voluntária da Cruz Vermelha, esteve ligada ao Centro de Solidariedade de Marvila, deu catequese durante duas décadas e foi apontada como a voluntária mais antiga da Liga Portuguesa Contra o Cancro de Santarém. Nos tempos livres costurava à mão próteses em algodão para mulheres mastectomizadas, um trabalho silencioso, íntimo e profundamente humano. Fundou ainda o primeiro grupo de dadores de sangue feminino.
Em 2004, lançou em Santarém o livro “Luz do Poente”, com chancela de O MIRANTE, numa sessão que encheu o auditório da Casa do Brasil. Joaquim Veríssimo Serrão apresentou a obra e elogiou a autora, dizendo que um poeta nunca está no poente e que aquele livro bem poderia chamar-se “Luz do Nascente”.

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