Funcionários dizem que venda de sucata pela Junta de Alenquer serviu para pagar almoço de despedida do ex-presidente
Trabalhadores da União de Freguesias de Alenquer entregaram 30 euros na assembleia de freguesia e alegam que o restante da verba resultante da venda de ferro velho pela autarquia foi usado num almoço de despedida do ex-presidente da junta. O visado nega ter conhecimento da situação.
Funcionários da União de Freguesias de Alenquer entregaram um envelope com 30 euros à mesa da assembleia de freguesia, na reunião de 15 de Junho, dizendo tratar-se de parte das verbas da venda de “ferro velho” realizada no anterior mandato. Segundo denunciaram os trabalhadores, a receita com o material vendido foi utilizada para pagar o almoço de despedida do anterior presidente da junta, Paulo Matias, actual vice-presidente da Câmara de Alenquer (PS).
Confrontado com as acusações, Paulo Matias disse a O MIRANTE desconhecer qualquer tipo de venda de ferro velho e que, “do seu conhecimento, não havia esse negócio”. Afirmou ainda nunca ter sido contactado para prestar esclarecimentos em assembleias de freguesia após a sua saída. O actual vice-presidente da Câmara de Alenquer fala em retaliações por parte de um grupo de funcionários com motivações políticas e afirma que “não vai entrar nesse tipo de discussões”, nem avançar com qualquer procedimento judicial.
A versão do funcionário da junta, Paulo Costa, é diferente. “O senhor Paulo Matias mandou funcionários da junta vender ferro velho e, com esse dinheiro, fez um almoço e convidou certas pessoas. Não todos os funcionários, mas alguns, e hoje tenho aqui o resto do dinheiro que me foi dado por outro colega e vou entregar o envelope”, disse no período destinado ao público na assembleia de freguesia.
Incrédulos, os autarcas começaram a fazer perguntas, começando pelo eleito da CDU, Fábio Roxo, que questionou de que tipo de ferro velho se tratava, a origem do mesmo e para onde foi o dinheiro. Do PSD, Paulo Pascoal perguntou se foi vendido um bem pertencente à freguesia sem que o valor tivesse sido contabilizado. Pedro Pereira, eleito pelo PS, perguntou há quanto tempo a situação tinha ocorrido e o presidente da mesa da assembleia, João Carlos David, questionou o motivo da devolução do dinheiro oito meses após a tomada de posse do actual executivo. Diogo Figueiredo, do Chega, interveio afirmando que encontrar dinheiro num envelope oito meses depois, sem que a própria junta anterior o tivesse contabilizado, “deixa um sinal de que as coisas não foram feitas com a transparência desejável”.
Almoço apenas para alguns
Após as perguntas dos autarcas, outro funcionário da junta explicou que a questão da venda de ferro velho já tinha sido levantada numa assembleia, mas que não havia provas. Segundo relatou, confrontaram outros colegas no estaleiro da junta e decidiram que o dinheiro que sobrara seria dividido por todos os funcionários ou entregue à junta. Na divisão da verba couberam dez euros a cada um, sendo que três funcionários recusaram receber o dinheiro e devolveram-no na reunião.
Outra funcionária da junta, Maria do Rosário, interveio para dizer que no almoço realizado em casa de Paulo Matias estavam apenas alguns trabalhadores e “ninguém de fora”, acrescentando que o problema surgiu precisamente porque nem todos foram convidados. Quanto ao material, tratava-se de ferro velho recolhido em vários locais, nomeadamente junto aos caixotes do lixo, afirmou, acrescentando que “como nem todos apanhavam, nem todos comiam”.
O presidente da União de Freguesias de Alenquer, Micael Correia, eleito pelo Todos, explicou que já tinha conhecimento do assunto através dos funcionários, mas que sem provas não podia acusar ninguém. Prometeu que situações semelhantes não voltarão a acontecer e garantiu que “se houver ferro velho para vender, será vendido a uma empresa certificada e haverá factura e recibo da compra do mesmo”.
Micael Correia disse ao nosso jornal que entregou o assunto a um advogado para perceber como proceder relativamente aos 30 euros e que apenas após parecer jurídico tomará uma decisão.
PJ investiga factos do anterior executivo
Na mesma reunião da Assembleia de Freguesia de Alenquer, Micael Correia confirmou a existência de duas situações relacionadas com o anterior executivo que, segundo afirmou, estão abrangidas por segredo de justiça. De acordo com o edil, após questão levantada pelo eleito do Chega, uma das situações já existia aquando da sua tomada de posse, tendo apenas tido conhecimento da mesma recentemente. A outra terá resultado de contactos da Polícia Judiciária no âmbito da investigação de determinados factos “mas foi pedido sigilo e não posso adiantar matéria acerca dos mesmos”, afirmou o edil.


