Fábrica da Renova investe milhões na descarbonização mas continua a impedir acesso da população ao rio Almonda
Renova investiu 11 milhões de euros para reduzir emissões e reforçar a imagem de empresa sustentável, mas continua sem resolver a falta de acesso da população à nascente do rio Almonda. A mesma empresa que apresenta metas ambientais ambiciosas mantém uma relação difícil com um rio que é de todos, marcada por vedações, queixas contra populares e episódios de poluição.
A Renova inaugurou em Torres Novas um investimento de 11 milhões de euros para reduzir em mais de metade as emissões da fábrica 2. A empresa mostra o seu poderio financeiro, mas continua sem resolver uma dívida antiga com o concelho: devolver à população o acesso livre e digno à nascente do rio Almonda, património natural que foi vedado pela empresa multinacional. O projecto Descarbonizar@Renova permite supostamente reduzir em 50,6% as emissões de dióxido de carbono e diminuir a dependência do gás natural. A intervenção, apoiada pelo PRR em cerca de 5,8 milhões de euros, assentou sobretudo na instalação de uma central de biomassa, complementada por medidas de eficiência energética, recuperação de calor e monitorização ambiental. O presidente da Renova, Paulo Pereira da Silva, apresentou o projecto como um “passo gigantesco” na transição energética. O investimento é relevante, mas a sustentabilidade não se mede apenas pela pegada carbónica que aparece nos relatórios, nas inaugurações e nas fotografias oficiais. Mede-se também pela relação da empresa com o território que a acolhe e sobretudo com o rio, cujo acesso à sua nascente a empresa vedou à população há anos.
A empresa que acaba de investir 11 milhões de euros na sua descarbonização continua sem apresentar uma solução para que os ribatejanos, e os torrejanos em particular, possam aceder à nascente de um rio que é de todos e é património natural e histórico do concelho que actualmente continua envolto em condicionamentos, queixas e conflitos. O caso arrasta-se há anos. Em 2022, uma petição com centenas de assinaturas foi entregue na Assembleia Municipal de Torres Novas exigindo a requalificação da zona envolvente e a retirada da vedação metálica que impede o livre acesso ao local. Em 2023, a Renova apresentou queixa-crime contra pessoas que estiveram junto à nascente no Dia da Espiga, numa iniciativa que os participantes descreveram como pacífica. Em 2024, populares voltaram ao local e a GNR foi chamada na sequência de nova denúncia por invasão de propriedade privada, embora tenha sido referido que os cidadãos se encontravam em zona de domínio público hídrico. A APA já tinha esclarecido que a água do Almonda é pública e que a Renova não pode impedir o acesso à nascente.
A relação da Renova com o Almonda também não está limpa de episódios ambientais. Em 2024, a empresa assumiu a responsabilidade por uma descarga poluente no rio, que classificou como acidente, garantindo que avisou as autoridades e que tomou medidas para evitar novas ocorrências. Antes disso, o tema já tinha sido levado à Assembleia Municipal de Torres Novas, onde foram denunciados episódios de poluição associados à fábrica.


