Complexo imobiliário de Alverca envolto em batalha judicial
Mais de uma década depois de ter sido concebido como um ambicioso campus de centros de dados em Alverca, o projecto permanece por concretizar, sem licença de utilização e no centro de uma complexa batalha judicial. Em causa pedidos indemnizatórios que ultrapassam os 500 milhões de euros.
Em Alverca, um grande complexo imobiliário, idealizado há mais de uma década para ser um pólo tecnológico e centro de dados de nível mundial, continua hoje completamente vazio e sem licença de utilização passada pela Câmara de Vila Franca de Xira, envolvido numa disputa judicial com pedidos indeminizatórios a superar os 500 milhões de euros.
O que deveria ser um campus para centros de dados com a certificação Tier IV, sinónimo de segurança máxima e funcionamento ininterrupto, transformou-se num complexo labirinto judicial, segundo noticiou a CNN na última semana, com acusações cruzadas em tribunal de falsificação de documentos, boicotes deliberados e pedidos de indemnização que superam os 500 milhões de euros, numa herança pesada que remonta aos últimos dias do Banif.
O conflito que hoje corre nos tribunais começou a desenhar-se, segundo a notícia, quando a Oitante, a sociedade criada pelo Banco de Portugal para gerir os activos tóxicos do Banif, foi notificada de uma acção movida por um promotor imobiliário. O empresário exigia cerca de 40 milhões de euros por ganhos não realizados num antigo negócio em Alverca, acusando a Oitante de bloquear a emissão da licença de utilização do imóvel.
Tudo começou em 2006
A raiz do projecto vinha de 2006, quando o empresário e um fundo do Banif se associaram para explorar o terreno. Anos mais tarde, em 2013, a parceria decidiu reconverter o espaço num mega data center. No entanto, o contrato de concessão assinado com uma tecnológica dava conta de um acordo em que o banco cedia o complexo por 30 anos a troco de uma renda anual de três milhões de euros, mas que só começaria a ser paga quando o espaço estivesse ocupado. A empresa que assumia este negócio de 100 milhões de euros tinha um capital social de, alegadamente, 100 euros. O contrato terá sido assinado a 18 de Dezembro de 2015, o dia anterior à aplicação da medida de resolução pelo Banco de Portugal, que ditou a queda e venda do Banif.
Suspeitando de que o documento foi retrodatado para escapar ao escrutínio dos reguladores e proteger os interesses financeiros do promotor, a Oitante avançou com um processo para anular o contrato por falsificação. A tecnológica avançou com uma contra-ofensiva em tribunal, acusando a Oitante de ter paralisado o projecto de forma coordenada para beneficiar um terceiro interessado. A empresa alega que as obras ficaram concluídas em 2016 e que passou uma década a tentar, sem sucesso, que a Oitante resolvesse o licenciamento.
Perante o impasse, a tecnológica exige agora que o contrato seja validado e, caso o imóvel já não lhe possa ser entregue, reclama uma indemnização de 566,7 milhões de euros, acrescida de 4,7 milhões por cada mês de atraso. Do seu lado, a Oitante nega qualquer boicote e afirma que a tecnológica “desapareceu” logo após a assinatura do contrato, culpando a falta de licença com a burocracia autárquica.
A Câmara Municipal de Vila Franca de Xira confirma que o imóvel continua sem licença de utilização simplesmente porque esta nunca terá sido requerida. Segundo a autarquia, o espaço tem apenas uma licença para armazéns e serviços e o projecto de alterações para o transformar num centro de dados ainda se encontra em fase de análise técnica. Enquanto o nó burocrático e legal não se desata, as instalações de Alverca permanecem como um monumento silencioso a um negócio que colapsou ao mesmo tempo que o banco que o financiava.


