Sociedade | 05-07-2026 12:00

Campino António Gordo foi distinguido na Festa da Amizade

Campino António Gordo foi distinguido na Festa da Amizade
Campino António José da Cruz Gordo (ao centro) foi homenageado na Festa da Amizade – Sardinha Assada, em Benavente - foto O MIRANTE

Campino desde rapaz, António José da Cruz Gordo foi distinguido no Recinto da Picaria, em Benavente, numa iniciativa marcada pelo desfile pelas ruas da vila, missa campal em memória dos campinos falecidos e provas de condução de cabrestos. A O MIRANTE confessou que enquanto conseguir montar a cavalo não faltará à festa em Benavente.

António José da Cruz Gordo, 76 anos, foi o campino homenageado na 56.ª Festa da Amizade - Sardinha Assada, em Benavente, numa cerimónia realizada no sábado, 27 de Junho, no Recinto da Picaria, junto ao Calvário. A distinção integrou um dos momentos mais ligados à tradição ribatejana do programa, que juntou campinos, cavaleiros amadores, atrelagens, jogos de cabrestos, missa campal e provas de condução.
A manhã começou com o desfile pelas ruas da vila, com campinos, cavaleiros amadores e atrelagens a seguirem em direcção ao Calvário. No Recinto da Picaria, realizou-se depois a missa campal em memória dos campinos falecidos, momento que antecedeu a homenagem a António José da Cruz Gordo. Nascido a 19 de Fevereiro de 1950, António Gordo cresceu ligado ao campo e ao gado, seguindo os passos do pai, recordado como um dos bons maiorais do seu tempo. A morte prematura do pai obrigou-o a crescer cedo. Único homem numa família com cinco irmãs, ajudou a mãe no sustento da casa numa época em que “os meninos de então nunca foram meninos” e faziam-se homens quase ainda no berço.
Aos 18 anos já guardava um rebanho de vacas bravas no Monte da Torre, em Lavre. Mais tarde passou pela Herdade da Amoreira de Cima, em Montemor-o-Novo, sempre ligado ao campo. Quando nasceu o primeiro filho quis voltar à sua terra e foi convidado por Custódio Emídio, feitor-geral da Casa Veiga Teixeira, para trabalhar na Herdade do Pedrógão como maioral das vacas bravas. Um ano depois era maioral dos toiros e responsável por todo o gado das restantes herdades da casa.

“Quem é humilde está sempre a aprender”
Foi nessa vida dura que aperfeiçoou a arte de campinar, numa altura em que o gado bravo era conduzido a pé. Ao lado de homens como Custódio Emídio, João Malaguias e Chico Mano, aprendeu que o segredo da profissão estava também na humildade. “Ser-se humilde, porque quem é humilde está sempre a aprender”, é uma das lições que ficaram associadas ao seu percurso.
António Gordo acompanhou toiros por todo o país, mas também em Espanha e França. Os mais velhos diziam-lhe que tinha um dom especial, como se falasse com os toiros e percebesse a melhor forma de conduzir uma manada. Uma das histórias recordadas na homenagem fala do dia em que Custódio Emídio lhe disse que outros campinos iriam ajudá-lo a fechar os toiros para a corrida. António respondeu que, se não se importasse, fechava a corrida sozinho. Na manhã seguinte, os toiros seguiram calmamente à frente do seu cavalo até entrarem nos currais.
Na Herdade do Pedrógão esteve cerca de dez anos, até aceitar o desafio de ser maioral e feitor da ganadaria do matador de toiros Vítor Mendes, onde permaneceu três anos a liderar toda a ganadaria. Regressou depois ao gado manso, primeiro na Herdade da Pitamariga de Cima e depois na Herdade da Lobeira. Actualmente trabalha na Herdade da Afeiteira, propriedade da família Ruy Gonçalves, onde está há 15 anos. Apesar da idade e das dores de uma vida de trabalho no campo, continua a montar a cavalo e a fazer sozinho o maneio do gado manso. A Benavente, António Gordo vai desde 1979. Chegou a fazer o caminho a pé, com o cavalo à arreata, acompanhado pelo amigo João Malaguias. “Eram outros tempos”, recorda. Mas a ligação à Picaria mantém-se firme. “Enquanto conseguir montar a cavalo não faltarei a Benavente”, diz o campino, frase que resume a persistência de uma vida inteira ligada ao campo.

Uma paixão de família

A paixão pela campinagem passou também à família. O filho Mário Gordo e os netos António Maria Gordo, Rodrigo Cruz e Maria Inês Gordo seguem-lhe as pisadas nesta vida do campo. Na homenagem em Benavente, esse legado familiar juntou-se ao reconhecimento de uma profissão que tem vindo a perder presença, mas que continua a ser uma das marcas identitárias do Ribatejo.
Depois da homenagem, o programa da Picaria prosseguiu com provas de condução de cabrestos e bois da guia, picaria à vara larga com dois toiros, almoço dos campinos e cavaleiros amadores e entrega de prémios. Ao final da tarde, a entrada e passagem de um toiro bravo pelas ruas de Benavente, acompanhado por campinos, cavaleiros amadores e jogo de cabrestos, voltou a reforçar a dimensão taurina da Festa da Amizade.

Mais Notícias

    A carregar...
    Logo: Mirante TV
    mais vídeos
    mais fotogalerias