O futuro para além das cinzas: como três concelhos do interior lutam por uma melhor comunidade
O MIRANTE anda a percorrer uma parte do país para um balanço do efeito da eucaliptização do território e para ouvir aqueles que no interior lutam pela qualidade de vida contra ventos, marés e incêndios.
Há datas que ficam gravadas na memória coletiva. Outras que preferíamos esquecer. 2017 pertence às duas categorias.
Foi o ano em que o fogo atravessou o centro do país com uma intensidade que poucos tinham visto até aquela data.
Em Vouzela, Figueiró dos Vinhos e Sever do Vouga, e em tantos outros territórios do interior, a paisagem mudou em horas. Vidas perdidas. Casas e indústrias destruídas. Explorações agrícolas perdidas. Florestas inteiras reduzidas a cinza.
Houve silêncio depois do fogo. E houve regresso.
Porque a vida não desaparece totalmente com o incêndio. Reorganiza-se.
Quase dez anos depois, o que se vê nestes territórios já não é apenas memória da destruição. É também continuidade, novas atividades e outras formas de viver o espaço rural.
A floresta voltou a crescer. Como sempre volta. O eucalipto regressou em muitos locais. Como sempre volta, sem aviso prévio, nem autorização de alguém. A vegetação não desaparece, volta com mais intensidade.
Mas algo mudou.
Talvez não na paisagem imediata. Mas na forma como ela é pensada.
Durante décadas, muitos destes territórios viveram ligados a uma economia florestal muito concreta. A produção de madeira. A fileira da celulose. O ciclo rápido do eucalipto. Um modelo que estruturava trabalho, rendimento e propriedade.
Depois de 2017 esse modelo não desapareceu. Mas deixou de ser o único discurso possível.
Hoje, quando se fala com autarcas destes concelhos, a linguagem já não é apenas floresta, floresta. Fala-se de turismo de natureza, de trilhos e rios, de biodiversidade, património natural, de pequenas economias locais, de fixar pessoas. E fala-se, sobretudo, de diversificação.
Em Vouzela, o discurso político aponta para um território onde a floresta já não é apenas produção, mas também paisagem e recurso turístico. Combate-se o deserto verde com uma nova visão do espaço verde.
Vouzela quer mais biodiversidade
À conversa com o presidente da Câmara de Vouzela, Carlos Oliveira, assume uma estratégia de desenvolvimento assente em vários pilares, com forte foco no desenvolvimento económico e na habitação para fixar as novas gerações.
O concelho destaca-se pela atração de investimento privado , desenvolvimento económico, habitação para arrendamento acessível. Com um crescimento 2,3% na sua população (o que já se reflete nas escolas, com um aumento de mais de 150 alunos e excelentes resultados nos rankings da escola pública).
Na área do turismo, aposta fortemente no turismo de natureza e na biodiversidade, tendo sido o primeiro concelho a receber um prémio de biodiversidade em Portugal. Embora o incêndio de 2017 tenha destruído 75% do território, a autarquia aproveitou a oportunidade para duplicar a aposta arqueológica e promover o turismo científico através do Centro de Recuperação de Ecossistemas Ribeirinhos na freguesia de Campelo.
Para além disso, o município está a investir na bioeconomia e na diversificação agrícola, promovendo a criação de um rebanho do povo (caprinos e ovinos) para a produção de leite e queijo de Lafões, gerando alternativas económicas à madeira, como a castanha e outros produtos da floresta. A autarquia lidera também o projeto da AIGP (Área Integrada de Gestão da Paisagem) para criar uma paisagem mais resiliente e geradora de valor, trabalhando em estreita colaboração com os proprietários privados e os bombeiros.
Figueiró dos Vinhos aposta na habitação para combater a desertificação
Em Figueiró dos Vinhos, a memória de Pedrógão continua presente. Não apenas como trauma, mas como referência permanente para políticas de prevenção e ordenamento.
À conversa com o presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos, Carlos Lopes, aposta em travar a desertificação humana e atrair pessoas, delineou uma estratégia social e económica abrangente. No plano social o município destaca-se pelos programas "Capacitar e Integrar" e "Radar Social", além da criação de uma unidade de saúde móvel para prestar cuidados de proximidade aos idosos isolados e da deslocalização de serviços administrativos da câmara para as populações sem transporte. Para os jovens, a autarquia criou um orçamento participativo de 10 mil euros e está a investir fortemente na habitação, tendo já adquirido diversos imóveis devolutos em ruínas para reconstruir, para além das habitações destinadas ao arrendamento acessível.
No campo económico, o concelho aposta no estratégia de fixar empresas e na reabertura da Escola Profissional Agostinho Roseta, que esteve fechada 8 anos e que agora abrirá com turmas na área da informática e programação. O grande projeto de desenvolvimento económico é o novo Campus Empresarial, um investimento de 4,5 milhões de euros focado na bioeconomia, que disponibilizará espaços "chave na mão" para investidores.
A nível florestal, o autarca defende o equilíbrio e a racionalidade, opondo-se a visões fundamentalistas, mas assume erros e facilitismos do passado. O concelho avançou com a implementação de condomínios de aldeia, o projeto "Aldeia Segura, Pessoas Seguras" e a limpeza de faixas de gestão de combustível. Contudo, o presidente critica duramente a burocracia do Estado e a transferência de competências sem o respetivo pacote financeiro, defendendo uma maior descentralização e uma política fiscal diferenciada para os territórios do interior.
Sever do Vouga reconhece dificuldades na aplicação das leis
Em Sever do Vouga, marcado pela vaga de incêndios de outubro de 2017, a leitura é semelhante. A floresta existe, mas é apenas uma parte do sistema.
À conversa com o presidente de câmara, Pedro Amadeu Lobo, o futuro passa pela melhoria das acessibilidades e pela diversificação económica. O grande projeto estruturante é a ligação ao IC35 (uma obra de cerca de 10,5 km planeada para iniciar entre o final de 2027 e o início de 2028), essencial para combater a interioridade. O concelho, conhecido como a "Capital do Mirtilo", foca-se na agricultura de pequena escala e na profissionalização e certificação dos produtores para garantir a rentabilidade das terras. Paralelamente, o município destaca-se pela forte presença industrial (com empresas produtoras de torres eólicas e palcos de teatro), pelo turismo (com moinhos, minas do Braçal e a Linha do Vouga) e pela promoção do desporto, sendo considerado a "Capital do Rallycross".
No que toca à floresta, o presidente da câmara aponta sérias dificuldades na aplicação prática das leis nacionais, que muitas vezes ignoram as singularidades do território. O autarca destaca o problema do minifúndio e do abandono das terras por herdeiros que não se entendem, o que dificulta o registo cadastral (BUPi) e a limpeza das faixas de gestão de combustível.
O município tem feito um esforço herculano na manutenção de caminhos florestais danificados pelo transporte de madeira e apoia ativamente os bombeiros voluntários. Contudo, o autarca defende que a gestão florestal deve ser pensada a médio e longo prazo, criticando a falta de responsabilização e as exigências legais desproporcionadas impostas às câmaras municipais sem que estas tenham autoridade ou meios suficientes para as executar.
Três concelhos. Três experiências diferentes. Mas uma ideia comum começa a aparecer: a floresta já não ocupa sozinha o centro do discurso sobre desenvolvimento.
Não desapareceu. Mas deixou de ser exclusiva. E, no entanto, ela continua lá. Desordenada, por limpar, ominipresente, sem dono nem responsável.
Regenera-se depois do fogo. Volta a crescer. Reocupa os espaços onde parecia ter terminado. Talvez um fardo demasiado pesado para todos. O território, esse, também muda. Mas não de forma brusca. Muda devagar. À escala das pessoas que ficam. E das que voltam. Ou das que nunca saíram.
Talvez por isso, quando se olha para estes lugares hoje, a pergunta já não seja apenas o que o fogo destruiu. Mas o que fica para além dele.
(Este artigo, baseia-se em entrevistas efetuadas recentemente, presencialmente e em separado aos presidentes das câmaras de Figueiró dos Vinhos, Sever do Vouga, e Vouzela, a que continuaremos a dar destaque noutros textos.
António Montez
Os fogos já começaram em força e as soluções são as mesmas de sempre: deixar arder
Eis um resumo de imprensa do dia em que escrevemos este texto e o país viveu o primeiro dia dos grandes incêndios do ano.
“Fogo de Vouzela dominado mas com risco de reacendimentos. Está dominado o incêndio de Vouzela, que era desde quinta-feira, dia 2 de julho, o maior fogo no país. Continuam no terreno milhares de operacionais para evitar reacendimentos. O estado do tempo é decisivo para as próximas horas. Acompanhámos aqui, ao minuto, todos os desenvolvimentos. No mesmo dia as notícias das televisões e dos jornais online informavam e confirmavam “Fogo em Vila Verde está a ser combatido por 114 operacionais e 6 aviões”. “Incêndio em S. Tirso controlado”. Família fica desalojada após incêndio em habitação no concelho de Ponte de Sor. Ainda do mesmo dia de 5 de Julho: mais de 1.300 operacionais combatem dois principais fogos rurais. O MIRANTE está ainda no terreno a conversar com autarcas, empresários bombeiros e outras entidades para percebermos como os concelhos onde a área florestal ocupa boa parte do território consegue sobreviver e construir o futuro. Em cima dos incêndios que começaram no dia 5 de Julho, damos conta de uma parte de três entrevistas com autarcas que realizamos recentemente e que visam precisamente ajudar a perceber como se resolvem os problemas da interioridade e da eucaliptização que, aparentemente, é um dos grandes problemas da florestação actual do nosso território.”
O MIRANTE está a trabalhar num projecto editorial para identificar as consequências da eucaliptização no ambiente e no tecido socioeconómico de Portugal e da Galiza. O trabalho é apoiado pelo Journalismfund Europe e é realizado em parceria com o jornal digital Galiciapress. A Journalismfund Europe é uma organização sem fins lucrativos, com sede em Bruxelas, que procura fortalecer a democracia na Europa através do apoio ao jornalismo de investigação independente.


