Chamusca paga há demasiado tempo a factura do isolamento
Concelho acolhe equipamentos e actividades de importância regional, como o Eco Parque do Relvão. Recebe diariamente tráfego pesado associado ao sector dos resíduos e suporta impactos ambientais, rodoviários e sociais que há muito exigem respostas estruturais.
A Chamusca é um dos concelhos do país que mais sofre com a falta de acessibilidades. Entre uma ponte que já não responde às necessidades, estradas saturadas e trânsito pesado a atravessar zonas habitadas, a população continua a pagar a factura de décadas de promessas por cumprir. A dimensão do problema é visível no terreno. O jornalista de O MIRANTE esteve dez minutos parado na rua principal da vila, a Rua Direita de São Pedro, e contou a passagem de perto de meia centena de camiões durante aquele período.
O concelho acolhe equipamentos e actividades de importância regional, como o Eco Parque do Relvão. Recebe diariamente tráfego pesado associado ao sector dos resíduos e suporta impactos ambientais, rodoviários e sociais que há muito exigem respostas estruturais. A Ponte João Joaquim Isidro dos Reis, entre a Golegã e a Chamusca, tornou-se o símbolo maior desse abandono. A travessia, envelhecida e condicionada, deixou de ser apenas um incómodo para quem perde tempo nas filas. Passou a ser um problema sério de segurança, como ficou evidente quando recentemente dois veículos dos bombeiros, em marcha de emergência, ficaram retidos no trânsito. Quando uma ambulância, uma viatura de socorro ou um carro de bombeiros não consegue passar, estamos perante uma ameaça directa às populações.
A situação é agravada por filas constantes, tempos de espera incomportáveis, piso degradado e acessos frágeis, que penalizam trabalhadores, empresas, famílias e serviços públicos. A Chamusca fica do outro lado do Tejo e aparentemente parece continuar do outro lado das prioridades nacionais, embora recentemente se tenha aprovado um estudo prévio para a concretização do corredor A13/IC3. É uma infraestrutura indispensável para garantir segurança, desenvolvimento económico e justiça territorial.
Também a Estrada Nacional 118 reflecte o peso dessa falta de soluções. A passagem contínua de camiões ligados ao Eco Parque do Relvão deixa marcas visíveis, com lamas no pavimento, maus cheiros, ruído, poeiras e insegurança para quem vive junto às estradas. Na rua principal da Chamusca o movimento é permanente e sufocante. O concelho recebe infraestruturas que servem todo o país, mas continua sem as acessibilidades que permitiriam retirar tráfego pesado do interior das localidades e proteger as populações.
À margem/ Opinião
A ponte que Montenegro prometeu continua por construir
A visita de Luís Montenegro à Ponte da Chamusca, em 2023, ficou como uma imagem política poderosa: o então líder do PSD esteve parado perante filas, semáforos, constrangimentos e condutores condenados a esperar para atravessar uma infraestrutura há muito ultrapassada. Bastaram poucos minutos no local para perceber o que a população da Chamusca vive todos os dias há anos. Na altura, Montenegro apontou o dedo aos sucessivos governos socialistas, falou da nova ponte e da conclusão do IC3 como prioridades e deixou no ar a ideia de que, com outro Governo, o problema teria finalmente resposta. O tempo passou, Montenegro chegou a primeiro-ministro e a Chamusca continua no mesmo sítio: presa a uma ponte incapaz de responder às necessidades da região, a uma estrada nacional sobrecarregada e a promessas que se acumulam como os camiões e outros veículos nas filas.
Para quem vive, trabalha ou investe no concelho, pouco interessa saber quem prometeu mais alto ou quem discursou melhor junto à ponte. O que conta é que as empresas e os trabalhadores continuam penalizados e os moradores continuam a suportar o custo diário de uma decisão que tarda. A Chamusca não precisa de mais visitas de circunstância. Precisa que quem transformou esta ponte em bandeira política a transforme finalmente em obra pública.


