Sociedade | 14-07-2026 10:00

Certificados falsos, criptoactivos e milhões: a teia criminosa que passou por Abrantes

Certificados falsos, criptoactivos e milhões: a teia criminosa que passou por Abrantes

Operação Erva Daninha revela um esquema de dimensão internacional que usou empresas legais, licenças do Infarmed, certificados falsos, criptoativos e sociedades de fachada para traficar droga. No centro da teia estava a Polyfarchemi, instalada no Tagusvalley, em Alferrarede, onde a Polícia Judiciária encontrou um laboratório preparado para tratar drogas sintéticas e canábis de elevada potência.

Era em Abrantes, no Parque de Ciência e Tecnologia, na freguesia de Alferrarede, que a Polícia Judiciária encontrou um laboratório que, sob aparência empresarial, terá servido uma rede internacional de tráfico de droga com receitas estimadas em 40 milhões de euros. A Operação Erva Daninha, desenvolvida pela PJ num inquérito do DCIAP, atingiu uma organização que, segundo a acusação, explorava empresas ligadas ao sector farmacêutico e à canábis medicinal para encobrir importações e distribuição de estupefacientes. O processo envolve 13 arguidos e 11 sociedades comerciais, suspeitos de tráfico de droga, associação criminosa, branqueamento de capitais e falsificação de documentos.
O nome central é a Polyfarchemi, instalada no Tagusvalley com um discurso de inovação química e produção de polímeros para a indústria aeronáutica e aeroespacial. Mas o que os inspectores encontraram apontava para outra realidade: máscaras, respiradores, luvas, balanças de precisão, misturadores industriais, bombas de vácuo, sistemas de embalamento e reagentes guardados em bidões. Para o MP, vários equipamentos tinham alterações compatíveis com unidades clandestinas de produção de droga. A acusação sustenta que a Polyfarchemi não tinha autorização do Infarmed para importar, exportar ou comercializar substâncias controladas. Ainda assim, terá recebido químicos da Índia e da Malásia, apresentados como produtos legais para fins industriais e acompanhados por documentação alegadamente falsa. O objectivo seria tratar substâncias como 3-CMC e 3-MMC, drogas sintéticas destinadas ao mercado europeu, sobretudo aos Países Baixos.
Também segundo o DCIAP, a rede terá desviado canábis comprada a produtores nacionais licenciados. O circuito formal indicava destinos externos, nomeadamente países africanos, mas a investigação suspeita que parte da mercadoria seguia para clientes europeus. A aparência legal era sustentada por certificados de importação, licenças e declarações aduaneiras alegadamente falsificados. A acusação também deixa críticas à fiscalização. O DCIAP aponta fragilidades no controlo do Infarmed, considerando que não existia verificação sistemática da autenticidade dos documentos apresentados nem contacto regular com autoridades estrangeiras para confirmar certificados. Alguns elementos teriam sinais evidentes de falsificação, como endereços electrónicos de domínios gratuitos, marcas oficiais com montagem digital e datas incompatíveis. O dinheiro circulava por canais complexos. Geert Caers, descrito como o “Big Boss” da estrutura, terá movimentado mais de 30 milhões de dólares em criptoactivos na Binance entre 2019 e 2024. A investigação aponta ainda para mais de 11 milhões de euros transferidos através de 17 sociedades de fachada na Malásia, usadas para fazer regressar fundos ao circuito financeiro com aparência de contratos comerciais, empréstimos e operações associadas à compra de canábis.
O Tagusvalley e a Câmara Municipal de Abrantes, presidida pelo socialista Manuel Valamatos, dizem ter sido enganados e garantem que a empresa não levantou suspeitas até à intervenção da PJ.

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