Sociedade | 18-07-2026 07:00

“Fui abusado em Santarém e Fátima mas a Igreja só reconheceu um caso”

“Fui abusado em Santarém e Fátima mas a Igreja só reconheceu um caso”
António Grosso - foto DR

António Grosso foi abusado entre os 10 e os 13 anos no Seminário de Santarém e numa instituição da Cova da Iria, em Fátima. A Igreja reconheceu apenas o primeiro caso e recusou compensação pelos abusos sofridos no Refúgio da Mãe do Céu, que a vítima descreve como “o pior período” da sua vida.

António Grosso, porta-voz da associação Coração Silenciado, foi vítima de abusos sexuais entre os 10 e os 13 anos no Seminário de Santarém e numa casa de gaiatos situada na Cova da Iria, em Fátima. Apesar de os dois episódios terem marcado profundamente a sua infância, apenas o caso ocorrido em Santarém foi contabilizado no processo de compensações financeiras criado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). O episódio vivido em Fátima, que António Grosso considera ter sido o mais grave, foi excluído com o argumento de que o Refúgio da Mãe do Céu não seria uma instituição da Igreja Católica. A estrutura era, no entanto, dirigida por um homem ligado à Ordem Franciscana. “A CEP considerou que o Refúgio da Mãe do Céu, em Fátima, não era uma instituição da Igreja, embora tivesse à frente um franciscano que estudou dez anos na ordem dos Franciscanos, em Braga”, explicou António Grosso.
Na resposta enviada à vítima, a Igreja alegou que o responsável seria apenas aspirante a frade e não um clérigo, afastando assim qualquer direito a compensação financeira. “Disseram que ele era apenas aspirante a frade, não era um clérigo e, portanto, eu não tinha direito a compensação financeira por esse abuso, que por acaso foi o pior período da minha vida”, lamentou. O caso de António Grosso é apresentado pela Coração Silenciado como exemplo de um processo que a associação considera injusto, pouco transparente e construído para reduzir ao mínimo o número de vítimas indemnizadas. Das cerca de 4.800 vítimas estimadas pela Comissão Independente, em Fevereiro de 2023, apenas 57 receberam até agora compensações financeiras. A associação lamenta também não ter sido recebida pelo Presidente da República, António José Seguro, apesar de lhe ter enviado uma carta a 22 de Abril. Segundo António Grosso, as respostas da Presidência têm sido evasivas, limitando-se a informar que o assunto continua em análise e que ainda não existe qualquer reunião agendada.
As vítimas exigem agora que o Estado intervenha e promova uma auditoria independente ao processo conduzido pela Igreja Católica. A Coração Silenciado considera que o mecanismo de apoio e indemnização foi “aberto e fechado em causa própria”, sem fiscalização externa e com decisões tomadas por estruturas nomeadas pela própria Conferência Episcopal Portuguesa. A associação tem já preparado um dossiê para entregar na Assembleia da República, no qual pretende demonstrar as incongruências, exclusões e falta de transparência de todo o processo. Uma das principais críticas prende-se com o facto de as vítimas não terem tido acesso aos relatórios elaborados sobre os seus próprios testemunhos e que serviram de base à atribuição ou recusa das compensações. António Grosso acusa ainda a Igreja de ter reduzido praticamente para metade os montantes propostos pela comissão responsável por avaliar os casos, aplicando aquilo que classifica como uma espécie de “imposto eclesiástico de 50%”.

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