Sociedade | 19-07-2026 21:00

“Antigos combatentes não precisam de medalhas, precisam de quem os ouça”

“Antigos combatentes não precisam de medalhas, precisam de quem os ouça”
Tenente Coronel Luís Garcia é o presidente do núcleo de Tomar da Liga dos Combatentes - foto O MIRANTE

Presidente do Núcleo de Tomar da Liga dos Combatentes quer preservar a memória militar e combater o isolamento dos antigos militares.

Há quem veja a Liga dos Combatentes como uma casa de saudade, onde antigos militares se encontram para recordar tempos de farda. O Tenente-Coronel Luís Garcia, presidente do Núcleo de Tomar, rejeita essa ideia. Para o militar, que passou à reserva depois de quase 40 anos no Exército, a Liga é sobretudo um espaço de apoio, escuta e proximidade. Um lugar onde se tenta garantir que quem serviu o país não acaba esquecido quando a idade, a doença ou a solidão começam a pesar. Aos 58 anos, Luís Garcia fala da vida militar com emoção. Não entrou no Exército por imposição familiar, embora admita que o exemplo do pai teve influência. Foi o serviço militar obrigatório que lhe mudou o rumo. Entrou para cumprir pouco mais de um ano, mas rapidamente percebeu que tinha encontrado o seu lugar. Gostou da disciplina, do espírito de camaradagem e da sensação de pertença a uma instituição onde todos partilhavam a mesma missão.
A carreira levou-o por missões internacionais no Kosovo e no Afeganistão e por funções na logística militar e no Estabelecimento Prisional Militar de Tomar. Passou à reserva quando sentiu que era tempo de estar mais próximo da família, mas admite que nunca se desligou verdadeiramente da tropa. “Às vezes sonho que ainda estou na tropa”, confessa a O MIRANTE. Foi esse sentido de missão que o levou a aceitar a liderança do Núcleo de Tomar da Liga dos Combatentes. Não por ambição pessoal, garante, mas por acreditar que a experiência acumulada deve continuar ao serviço dos outros. “Não quero ser recordado como alguém que passou por aqui. Quero que se recordem de uma equipa que conseguiu ajudar pessoas”, afirma. Luís Garcia sublinha que o trabalho só é possível graças aos voluntários que continuam a servir a comunidade depois de terminarem a carreira militar. O núcleo acompanha antigos combatentes e famílias em situações de doença, dificuldades económicas ou isolamento social, articulando respostas com assistentes sociais, psicólogos da Liga dos Combatentes e instituições públicas. O apoio passa por acompanhar processos, esclarecer direitos ou simplesmente estar presente.
O presidente recorda um antigo combatente acamado que queria regressar à terra natal antes de morrer. A Liga assegurou o transporte em ambulância e continuou depois a acompanhar a viúva, também ela com problemas de saúde. São histórias discretas, longe das cerimónias oficiais, mas reveladoras da função social da instituição. “Às vezes somos nós a única família que lhes resta”, resume. Para o Tenente-Coronel, a solidão é hoje um dos maiores inimigos dos antigos militares. Depois de anos marcados pela disciplina, pela rotina intensa e pelo convívio permanente, muitos passam à reserva e mergulham numa vida silenciosa. Os primeiros meses podem parecer libertadores, mas depois alguns fecham-se em casa, perdem contactos e deixam de conviver.
Além do apoio social, o Núcleo de Tomar quer preservar a memória militar do concelho. A cidade tem ligação profunda à História de Portugal, dos Descobrimentos à participação do antigo Regimento de Infantaria 15 na Primeira Guerra Mundial. “Temos de manter viva esta história. Se nós não a contarmos, corre o risco de desaparecer”, sublinha Luís Garcia. A futura sede deverá incluir uma área museológica com o espólio militar do Major-General Lousada e documentos doados por antigos combatentes e famílias, criando um espaço visitável que dê rosto a quem serviu o país. Com cerca de 620 associados, o Núcleo de Tomar sobrevive sobretudo das quotas dos sócios e do apoio da câmara municipal através do programa municipal de associativismo. As dificuldades financeiras existem, mas não travam convívios, visitas culturais, intercâmbios e iniciativas contra o isolamento. “Enquanto houver alguém que precise de nós, continuaremos a cumprir essa missão”, conclui.

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