Sociedade | 20-07-2026 18:00

É urgente reforçar a monitorização contínua do rio Sorraia

É urgente reforçar a monitorização contínua do rio Sorraia
Cheias e poluição colocam novos desafios à gestão do rio Sorraia. Curso de água acolhe provas desportivas e praia fluvial em Coruche - foto O MIRANTE

A poluição por plásticos e a preparação do território para cheias mais intensas são questões que preocupam especialistas no que toca à bacia do rio Sorraia.

O projecto europeu TRAP defendeu a urgência de reforçar a monitorização do rio Sorraia, reduzir a poluição por plásticos e preparar o território para cheias mais intensas, num contexto de agravamento dos fenómenos climáticos extremos. A posição foi assumida durante as primeiras Jornadas TRAP — “Reimaginar o Rio: as Cheias do Sorraia e os Caminhos do Plástico”, que decorreram em Coruche, no dia 18 de Junho, e reuniram investigadores, técnicos e entidades públicas.
Em debate estiveram os principais riscos associados a um “cenário climático paradoxal” de redução da precipitação anual, mas “maior probabilidade de chuvas intensas em curtos períodos”. Citado em comunicado, Jorge Ponte, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, revela que as projecções apontam para uma diminuição de 30% a 40% na precipitação até ao final do século. “No entanto, o aquecimento do ar, que já se situa entre 1 e 2ºC acima da média histórica, aumenta a capacidade de retenção de vapor de água na atmosfera, o que favorece episódios de chuva mais intensa e agrava o risco de ocorrência e a dimensão das cheias”, acrescentou.
A monitorização do rio Sorraia foi identificada como uma das principais lacunas. Pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Manuela Saramago destacou que o Sorraia “nunca deixou de ser monitorizado”, mas não de forma contínua no tempo nem abrangente no espaço, sublinhando a necessidade de colmatar esse défice para garantir medições mais rigorosas. Para tal, apelou à colaboração da autarquia, da Administração da Região Hidrográfica (ARH) do Tejo e Oeste e da população, “quer na identificação de um local para a instalação de uma nova estação hidrométrica, quer na prevenção da vandalização destes equipamentos”.

Cuidar do Sorraia é cuidar do futuro
No mesmo sentido, investigadores do projecto TRAP têm defendido a recolha de dados que permitam desenvolver um “gémeo digital” do rio Sorraia, uma ferramenta que poderá prever o comportamento do curso de água. Também citado no comunicado, José Núncio, da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia, afirmou que cerca de dois terços da bacia hidrográfica não estão monitorizados, defendendo a criação de uma rede de dados de acesso público que apoie a tomada de decisão.
Já Carlos Castro, da ARH do Tejo e Oeste, sublinhou a importância do planeamento do território, defendendo a necessidade de garantir espaço para o rio, evitar construções em leito de cheia e promover áreas permeáveis e zonas verdes que facilitem o escoamento das águas. A preservação das galerias ripícolas foi igualmente apontada “como uma medida essencial para mitigar os impactos das cheias”, consideradas inevitáveis na região.
A relação histórica entre a população e o rio foi também evocada por Aníbal Mendes, do Museu Municipal de Coruche, que apresentou imagens ilustrando a evolução da ocupação humana junto ao Sorraia e os desafios cíclicos associados às cheias. No âmbito da protecção civil, o coordenador municipal, Luís Fonseca, recomendou a preparação de kits de emergência para 72 horas por parte dos cidadãos, como forma de aumentar a resiliência face a fenómenos extremos. O presidente da Câmara de Coruche, Nuno Azevedo, defendeu a cooperação entre entidades públicas, investigadores, sociedade civil e população, considerando que “cuidar do Sorraia é cuidar do futuro de Coruche”.

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