Sociedade | 20-07-2026 07:00

População da Passinha critica município por não impedir trânsito de camiões durante a noite

População da Passinha critica município por não impedir trânsito de camiões durante a noite
Camiões da Santos e Vale continuam a fazer num inferno a vida de quem vive na Passinha - foto O MIRANTE

Moradores da Passinha sentem-se abandonados pela Câmara de Alenquer na batalha contra a passagem de centenas de camiões da empresa Santos e Vale pela Rua dos Bons Amigos. Acusam a autarquia de não defender a população em tribunal e continuam à espera de uma decisão judicial que ponha fim a um problema que se arrasta há quase seis anos.

Os moradores da Passinha sentem-se “abandonados” pela Câmara de Alenquer e dizem que o tormento por que passam há quase seis anos, devido à passagem dos camiões da Santos e Vale na Rua dos Bons Amigos, é desvalorizado. No dia 4 de Julho houve nova audiência em tribunal, num processo movido por um grupo de moradores contra a empresa de logística e contra o município. Segundo a porta-voz dos moradores lesados, Helena Nuno, em tribunal a advogada do município mostrou não estar ao lado da população e pôs em causa as queixas dos moradores nas questões que levantou.
A representante é taxativa e considera que a principal responsabilidade pelo problema é da câmara, ainda no mandato de Pedro Folgado, por ter licenciado o empreendimento logístico e autorizado a circulação de pesados por uma via estreita, com cinco metros e sem passeios, onde existem habitações. Por isso mesmo, o que os moradores esperavam era que o actual presidente, João Nicolau, tivesse coragem e interditasse na totalidade a passagem de camiões naquela rua durante a noite, assumindo as consequências dessa decisão, incluindo uma acção subsequente em tribunal por parte da Santos e Vale. “São opções políticas”, lamentou a porta-voz.
Recorde-se que, em reunião de câmara, o advogado da Santos e Vale pediu que passassem pelo menos 50 camiões na Rua dos Bons Amigos durante o período nocturno, proposta que foi considerada pelo município, incluindo os vereadores da oposição, com o compromisso de a câmara assinar um contrato com a empresa no prazo de 45 dias, através do qual esta também se comprometa, entre outras medidas, a ajudar a pagar a estrada alternativa na Quinta da Telhada.

À espera de decisão judicial
As críticas surgem numa altura em que os residentes continuam a aguardar uma decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa, embora tenham consciência de que esta poderá demorar. Segundo Helena Nuno, a juíza já ouviu várias testemunhas e a expectativa dos moradores é de que possam surgir novidades após as férias judiciais. “Se a decisão nos for favorável, a empresa vai recorrer. Estamos preparados para isso, mas não vamos desistir”, garante, adiantando que os moradores afectados já gastaram cerca de oito mil euros em honorários de advogados e custas judiciais.
Os moradores contestam igualmente as declarações recentes da empresa, feitas em reunião de câmara, sobre o número de camiões que circulam na Passinha. Helena Nuno recorda que foram instaladas câmaras de vigilância e realizadas contagens de veículos que, segundo afirma, demonstram uma realidade muito diferente da apresentada pela transportadora. “Em 24 horas contabilizámos 334 passagens de camiões, no dia 22 de Maio. Temos as imagens e mostrámos essas provas em tribunal”, refere.
Segundo a moradora, mesmo após a recente atenção mediática ao caso, a circulação de pesados continua a afectar a qualidade de vida da população. “Se antes passavam mais de 300, agora podem passar cerca de 200, mas continuamos a sofrer exactamente o mesmo. Durante a noite continuam a passar camiões e há dias em que circulam em autênticos comboios”, relata.

Medidas anunciadas não resolvem problema
A moradora considera que as medidas anunciadas pela autarquia, como a instalação de semáforos, radares ou a construção de uma futura via alternativa, não resolvem o problema a curto prazo. “Precisamos de soluções agora. A estrada alternativa ainda vai demorar anos e os radares não resolvem o descanso das pessoas”, sublinha.
O impacto da circulação dos pesados na vida quotidiana foi também descrito por outros residentes ouvidos por O MIRANTE. Rosa Silva, que vive na localidade desde 2012, afirma que os camiões passam junto à sua habitação durante o dia e durante a noite. “É à porta do meu quarto. Para dormir é com comprimidos e, mesmo assim, acordo várias vezes. Não posso abrir as janelas por causa do barulho. É como se os camiões entrassem dentro de casa”, descreve. Também Alice Forte classifica como um inferno morar actualmente naquela rua e relata que já foi várias vezes insultada quando sai do portão de casa.

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