Voltaram do estrangeiro à procura da vida que o dinheiro não compra
Guida Rodrigues regressou da Alemanha por causa do filho. Eduardo Guita e Ana Lopes deixaram a Suíça à procura da qualidade de vida que os salários altos não conseguiam comprar. Os três voltaram à Chamusca depois de construírem carreiras, famílias e rotinas no estrangeiro. Encontraram os amigos e a terra de sempre, mas também desemprego, salários mais baixos, burocracia e a sensação de já não pertencerem totalmente a lado nenhum.
“Somos sempre estrangeiros, tanto lá fora como cá”. A frase de Guida Rodrigues resume a experiência de quem regressa muitos anos depois. Aos 46 anos, natural de Ulme, deixou Portugal quando tinha 19. Viveu 23 anos na Alemanha, onde trabalhou por conta de outrem e acabou por explorar duas gelatarias. Voltou em Dezembro de 2022, com casa própria, algumas poupanças e o filho Tiago, mas sem emprego garantido.
Eduardo Guita, de 41 anos, e Ana Lopes, de 36, ambos naturais da Chamusca, fizeram um caminho diferente, marcado pelas mesmas dúvidas. Eduardo saiu em 2007 para se juntar aos pais na Suíça. Ana partiu aos 20 para a Alemanha, sozinha e sem dominar a língua. Anos mais tarde, os dois, que tinham frequentado a mesma escola sem praticamente se cruzarem, conheceram-se através de uma rede social na Internet. Ana juntou-se depois a Eduardo na Suíça, onde nasceu a filha do casal.
Guida saiu com o então marido, trabalho e alojamento assegurados. O objectivo era ganhar dinheiro, construir uma casa em Portugal e regressar. A casa foi feita em Ulme, mas a vida prolongou-se na Alemanha. Nas gelatarias criou relações com clientes e viu crianças crescerem. Ainda hoje fala com saudade das filas que só terminavam ao fim do dia. No mesmo país, Eduardo trocou a representação de um banco pelas limpezas e, pouco depois, pela construção civil. Especializou-se em pladur e descobriu um trabalho de que gostava. Os salários eram muito superiores aos portugueses, mas rejeita a imagem de uma emigração onde todos enriquecem. A vida era cara e poupar obrigava a controlar cada despesa. “Para juntar dinheiro é preciso fazer muita contenção de despesa”, resume.
Filhos no centro da decisão
Os filhos foram decisivos nos dois regressos. Tiago, hoje com 17 anos, nasceu na Alemanha depois de uma gravidez de alto risco. Ainda no útero recebeu 13 transfusões de sangue, realizadas em Frankfurt, a cerca de 160 quilómetros da casa da família. Guida recorda viagens feitas sozinha, com medo e sem familiares por perto. Apesar da solidão no processo, o acompanhamento médico marcou a forma como compara os serviços de saúde alemães com os portugueses.
Também na educação, afirma, há diferenças para um jovem que, como o seu filho, tem limitações de aprendizagem e, apesar do apoio encontrado na escola da Chamusca, a mãe considera que Portugal ainda falha na inclusão e na preparação destes jovens para a vida adulta. Faltam actividades, desporto adaptado e respostas que lhes ensinem a fazer compras, cozinhar ou deslocarem-se com autonomia. Apesar das diferenças não se arrepende de ter seguido a vontade do filho que sempre sentiu Portugal como casa e lhe pedia para voltar. Já divorciada, percebeu que, se lhe acontecesse alguma coisa, o filho ficaria praticamente sozinho e tomou a decisão.
No caso de Eduardo e Ana, a filha de 11 anos tornou a decisão mais pesada. Nasceu e cresceu na Suíça, frequentou a escola em alemão e tinha naquele país as suas referências. Em casa falava português, mas praticamente não sabia escrevê-lo. Quando chegou à Chamusca teve de fazer grande parte da adaptação sozinha. O casal considera que faltou acompanhamento específico.
Poucos dias depois da mudança, a menina já perguntava quando voltariam à Suíça. Para ela, Portugal era o país das férias e a Suíça era a casa. Os pais decidiram que não poderiam andar “a brincar às casinhas”, mudando a filha de escola e de país sempre que surgisse uma dificuldade e hoje, dizem com convicção, “voltar a emigrar está fora de questão”.
A partida da Suíça ocorreu depois de um período duro. Ana entrou em conflito laboral com o patrão e deixou de receber salários. Eduardo tornou-se o único sustento da família e as despesas acumularam-se. O casal descreve a recuperação como um caminho “do menos dez até ao zero”. Quando conseguiram pagar tudo, perceberam que era o momento de regressar. Vieram atrás da família, do clima, dos amigos e da possibilidade de viver com mais tempo.
Regressos sem garantia de emprego
Os regressos fizeram-se sem empregos garantidos. Guida começou poucos meses depois como assistente administrativa numa oficina mecânica, na Chamusca. Ficou três anos, até o posto ser extinto no final de 2025. Desde então está desempregada, frequenta formações e procura uma oportunidade na área administrativa. Nunca imaginou voltar aos 43 anos e enfrentar novamente a insegurança profissional.
Ana encontrou rapidamente trabalho em telemarketing e Eduardo trabalha em Lisboa. Ambos conseguiram reintegrar-se profissionalmente, embora reconheçam que as oportunidades nem sempre correspondem às qualificações adquiridas no estrangeiro. É essa falta de reconhecimento que mais desilude Guida. A experiência de mais de duas décadas a trabalhar, gerir negócios e lidar com clientes parece ter pouco peso no mercado português. Ainda olha para espaços comerciais vazios e imagina uma gelataria, mas perdeu a confiança para arriscar. O medo nasce da carga fiscal, da falta de movimento e da incerteza sobre a sobrevivência de um negócio.
E as comparações são inevitáveis, com Guida a recordar que pagava 690 euros por um apartamento com boas condições. Considera incompreensível que Portugal tenha rendas e preços próximos dos alemães, mas salários muito inferiores. Eduardo e Ana valorizam os rendimentos suíços, mas colocam do outro lado da balança o sol, o mar, a família e a possibilidade de viver com mais tempo.
Guida admite que teria uma vida financeiramente melhor se tivesse ficado na Alemanha. Eduardo não se arrepende de ter emigrado, mas não deseja repetir a experiência. Ana sente que Portugal continua atrasado em vários serviços, mas acredita que a família pode construir aqui uma vida com sentido.
A quem pensa regressar, os conselhos divergem apenas no tom. Guida recomenda prudência e um “pé-de-meia bastante grande”, sobretudo para quem não tem casa. Eduardo responde sem hesitar: “Regresse”. Acredita que quem conseguiu começar do zero no estrangeiro também consegue reconstruir a vida em Portugal. Até porque, concordam, a vida no estrangeiro esteve longe de ser perfeita. Houve solidão, trabalho duro e momentos em que sentiram que não eram dali.
Programa Regressar soma 567 candidaturas aprovadas no distrito de Santarém
O distrito de Santarém registou 567 candidaturas aprovadas ao apoio financeiro do Programa Regressar desde o arranque da medida, em 2019. Os processos deferidos abrangeram ainda 294 familiares que acompanharam os candidatos no regresso e na fixação em Portugal, segundo dados disponibilizados a O MIRANTE pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP).
O número de aprovações aumentou de forma acentuada nos últimos anos. Depois de apenas nove candidaturas em 2019, foram deferidas 41 em 2020, 58 em 2021, 51 em 2022, 71 em 2023 e 95 em 2024. O valor mais elevado foi alcançado em 2025, com 177 candidaturas aprovadas. Em 2026 estavam contabilizadas 65 até 8 de Julho, mas o número é provisório, uma vez que o ano ainda está em curso e permanecem candidaturas em análise. A de Ana Lopes é uma delas. O processo, afirma, continua pendente por causa de comprovativos do agregado familiar. Guida Rodrigues afirma que foi desencorajada no consulado quando pediu informações para se candidatar.
França é o principal país de proveniência dos beneficiários que fixaram residência no distrito de Santarém, com 140 candidaturas aprovadas, seguindo-se a Suíça, com 113, e o Reino Unido, com 109. Estes três países representam quase dois terços do total.


